Um presente muito apreciado

Há muito tempo que conheço a Manuela. Fomos da mesma turma durante um ano, antes de ela abandonar o curso e Portugal para seguir um belga alto e ruivo. Já lá vão 28 anos (uma vida!), mas lembro-me dela como um aluna atenta, concentrada, com uns cadernos sempre impecáveis, escritos com várias cores. Era a ela a quem recorríamos sempre que tínhamos uma dúvida, e os seus cadernos muitas vezes passavam de mão em mão para copiar aquilo a que (nós, as estouvadas, distraídas, mais concentradas no sorriso do professor do que naquilo que ele dizia) não tínhamos prestado atenção. A Manuela era o símbolo da aluna atinadinha, boa a todas disciplinas, simpática com toda a gente.

Fora da escola tive oportunidade de descobrir que por detrás daquela rapariga gentil havia, afinal, uma rebelde – foi aí que ficámos amigas. Entretanto ela emigrou, casou, teve filhos. Embora atenuada pela distância física e pelas circunstâncias (ainda nós todas nos andávamos a divertir e já ela era mãe), a amizade manteve-se. Estive com ela várias vezes na Bélgica, e cá em Portugal sempre que vinha de visita à família. E fomos sempre mantendo contacto por carta ou por e-mail.

Da Bélgica era (e ainda é) a Manuela quem me falava dos melhores artesãos portugueses, das fábricas que eu julgava há muito fechadas e ela visitava quando vinha de férias, dos mercados, das lojinhas que me mostrava quando vinha ao Porto (e eu, que morando a 20 kms desconhecia tudo aquilo). Foi ela quem me mostrou a maior parte dos blogues que hoje sigo. Portugueses, claro.
Entretanto, inscreveu-se num curso de litografia. Com a paixão que a caracteriza em tudo o que faz, mais uma vez se destacou como a melhor da turma, ganhou prémios, fez exposições. Os trabalhos refletiam aquilo que lhe vai na alma, a saudade do Porto, das suas gentes e dos seus cenários.

Irrequieta, sempre que estamos juntas fala de um projeto novo. Nos últimos tempos tem-se dedicado a fazer pequenos artigos de artesanato: pulseiras, colares, porta-chaves, mas também peças bordadas, envelopes e etiquetas, que podem ser vistos aqui. Tudo feito com materiais a que ela dá uma nova vida e que, finalmente, se dispôs a vender.

De uma generosidade sem limites, adora partilhar o que faz, e esta semana surpreendeu-me com um presente inesperado e fora do tempo. Com o cuidado de sempre, enviou-me como postal uma das suas obras de arte de litografia, lindíssimos envelopes feitos de mapas e uma caixinha com alfinetes. Tudo feito por ela, incluindo o pequeno coração com as suas iniciais, que remata a caixa. E também um delicioso chocolate que não sobreviveu até à sessão fotográfica.

Nenhuma frase acompanhava o presente. Porque a Manela sempre foi mais de gestos, o detalhe e o carinho com que embrulhou tudo isto dizem muito.
Eu, pelo contrário, não tenho outra forma senão multiplicar-me em palavras para lhe dizer como gostei desta prenda e de tantas outras que me deu.

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