Dias assim

2016

O ano não entrou propriamente tão soalheiro como a imagem faz acreditar, mas começou com a promessa de uma vida mais saudável, mais mexida, mais fora de portas, com vontade de reunir com amigos mais vezes, em volta de uma mesa ou de uma toalha estendida no prado.
Começou também a terminar projetos vindo do ano velho, como o de coser as nossas iniciais a guardanapos de pano. Mais uma vez utilizei pedaços de ganga, debruadas a linha vermelha, num contraste que me agrada. Como duas iniciais se repetem, optei por dois tons de ganga. Não ficou uma obra de arte, mas cumpre a função e gostei do resultado.

E gosto mais ainda de brincar com as iniciais, que vou trocando ao sabor do momento e da disposição.

Porque há dias de plenitude…

Alma

… dias em que à mesa se alimentam os sonhos…

Mala

… e outros dias, de regozijo ou desalento (e a mesma palavra pode significar tanta coisa).

Lama

Afinal a vida é feita de dias assim e assado. Sirva-se, com apetite.

De sacos cheios

Está a tornar-se um hábito, transformar velhas calças de ganga em objetos úteis. Foi assim com as pegas de cozinha, com bolsas para telemóveis, com apliques em guardanapos (trabalho em curso). Há umas semanas precisei de substituir os guarda-sacos, feitos por mim e já com muitos anos de uso.

Lembrei-me então que a forma mais fácil e rápida de o fazer (não me ajeito com máquinas de costura e faço sempre tudo à mão) seria aproveitar as pernas das calças, que já têm a forma pretendida, sendo apenas necessário cortar à altura que precisava.

Na bainha existente bastou descoser um pouco a costura, para poder passar o cordel que serve para pendurar os guarda-sacos. Só na parte de baixo tive de coser uma dobra, para meter o elástico. Como também reutilizo os sacos para fruta e legumes, fiz os dois em tons diferentes. E assim tenho sempre sacos à mão, quando tenho de ir às compras.

Para quem precisar saber com mais pormenor como se faz um guarda-sacos, há bastantes tutoriais mais detalhados. Como este, que aproveita pedaços de tecido, ou este bem mais simples. Há ainda outras alternativas, aproveitando garrafas de refrigerantes, que podem ser feitas com a ajuda das crianças de casa. Seja em versão divertida ou então mais elegante.

Ki… bom

Não fosse eu uma deslumbrada, as minhas opiniões seriam de mais confiança. Pois se num dia venho para aqui tecer laudas ao doce de ginjas, no outro apaixono-me irremediavelmente pela compota de limão – com casca e tudo, como na canção -, para logo a trocar pela doçura de barrar no pão feita de ameixas rainha-cláudia trazidas do campo.
Com o calor de junho dispo-me de preconceitos e entrego-me à volúpia açucarada feita com morangos da minha horta, enquanto que o frio do inverno me traz desejos das tirinhas macias de um doce de laranja pecaminoso.

Nestas últimas tardes tenho-me dividido entre dois amores, ambos de travo exótico. Um feito de abóbora e especiarias, outro verde como os campos que vejo pela janela. Sim, que os kiwis são frutos que chegam com as primeiras chuvas de outono, pelo menos os que crescem em Portugal – os que vemos nas prateleira durante o resto do ano normalmente vêm do outro lado do mundo.
Foi numa tarde de outono que uma amiga me trouxe parte da sua colheita, tão abundante que tive de lhe dar algum destino. Quando finalmente provei o resultado, foi paixão à primeira dentada. É que o malandro não é só lindo de morrer como bom, mesmo muito bom.

Porque se tem vindo a avolumar “o cortejo de fãs” (palavras da V.), e como não sou ciumenta, a receita é esta:

1 kg de kiwis maduros
500 gramas de açúcar
1 lima

Depois de descascados, cortam-se os kiwis em pedacinhos. Colocam-se num tacho com açúcar até que este derreta completamente. É então que se junta a raspa, o sumo e a polpa da lima. Deixa-se cozinhar até engrossar. Eu optei passar a varinha mágica, deixando alguns pedaços inteiros. Quando fizer ponto estrada está pronto a guardar.
Se conseguir…

Tarte de Nós

Isto de ter abastecimento de nozes para o ano inteiro não é pera doce. Há que esperar que a chuva e o vento atirem os frutos ao chão, andar de costas vergadas para os apanhar – no meio de folhas secas, ervas, urtigas – para descobrir, quando já dávamos o trabalho por terminado, que uma boa quantidade ainda nos aguarda, entre urtigas, ervas, folhas secas (tenho um pressentimento de que as nozes são, afinal, bichos curiosos que saem do esconderijo para nos espreitarem).
A operação repete-se sempre que há uma ventania ou chuvada até que os galhos não conservem mais do que folhas amarelas das nogueiras.

Antes de se guardarem à sombra para aguentarem o ano inteiro, os bichos de casca grossa ainda têm de ser estendidos ao sol, de preferência numa varanda que fique longe da boca voraz de uma cadela com apetites estranhos. Depois de armazenadas em sacos, as nozes ainda requerem muitas horas de paciência e calos nas mãos, até que finalmente sejam despidas das cascas (excelente combustível para a lareira), e estejam prontas a comer.
Cá em casa usam e abusam-se. Ao natural, em iogurtes matinais, em bolos e pães, em compotas outonais, a acompanhar requeijão com mel, substituindo os pinhões no pesto caseiro.

Mas não há dúvida, de que a maneira favorita é na Tarte de Nós (porque é a preferida de quase todos, aquela que nunca sobra para o dia seguinte, a que se leva para casa de amigos, quando os queremos presentar com a nossa melhor sobremesa).

Aqui fica a receita. Quem sabe se não se torna também uma Tarte de Vós.

2 embalagens de massa folhada (redonda)
2 colheres (sopa) de manteiga à temperatura ambiente
1 chávena de açúcar
2 ovos
1 chávena de nozes picadas
1 colheres (sopa) de farinha maizena
6 metades de nozes (para enfeitar)

Forrar a tarteira com a massa folhada (1 embalagem). Bater a manteiga com metade do açúcar até ficar em creme. Juntar as gemas, uma a uma, as nozes e maizena. Deitar este creme sobre a massa folhada. Bater as claras em castelo, juntando o açúcar restante. Cobrir o creme de manteiga e nozes. Levar ao forno médio por 10 minutos.
Retirar do forno e fazer uma grade com a massa folhada restante.
Enfeitar com as metades de nozes. Levar ao forno quente por 30 minutos.

Uma dica: a massa folhada que sobrar pode usada para fazer pequenos folhados com salsicha ou cubos de queijos feta

Bem-vindo outono

Apesar das temperaturas mornas, do guarda-roupa leve, nas águas que ainda convidam a um mergulho (bem revigorante), é oficial: o outono chegou. Mesmo imaginando uma vida sem calendários ou avisos da hora exata da entrada na estação mágica, os sinais seriam inequívocos. Já partiram os bandos chilreantes de pássaros deixando em seu lugar o crocitar melancólico das gralhas e dos corvos. Agora há brumas matinais, nozes e maçãs pelo chão, vizinhos que nos enchem a casa de abóboras, um recolhimento interior e vontade de retomar as tradições que inventámos para nós.

E assim o outono vai entrando na nossa vida pé ante pé, até ao dia em que sabemos que se instalou para ficar. É o dia de festa em que acendemos a lareira pela primeira vez. Porque parece um ritual sempre novo; encher o cesto com lenha, fazer bolas de jornal para uma combustão rápida, acender o fósforo iniciático e depois ficar quietos no sofá, hipnotizados pela dança das chamas e do crepitar dos galhos.

Ao entrar no sexto outono que passamos em Trás-os-Montes, ainda me custa a acreditar que toda a lenha usada na lareira venha das poucas árvores que nos rodeiam a casa. Não é um pequeno bosque, sequer: ulmeiros doentes a ladear os taludes, ramos de nogueiras antigas que secam com o tempo, cerejeiras a descair para o terreno contíguo. Coisa pouca. E, no entanto, suficiente para encher o canto da lenha (construído pelo marido, que descobriu talentos desconhecidos desde que se mudou para o campo), para mais um outono, mais um inverno.

Sermos nós a cortar, transportar e guardar a lenha, tem ainda uma vantagem, apontada por um vizinho, com o habitual humor transmontano: “Aquece agora e aquece depois”. Só benefícios, portanto.

Construções na areia

É alvo dos primeiros fascínios. Mal se consegue sentar, qualquer criança posta na praia tem curiosidade de saber que material estranho é aquele, que tanto escorre pelos dedos, como se forma numa bola à medida das suas mãos, que é frio, quente, seco, molhado. Que sabe bem ou mal, conforme os gostos, mas não se desfaz na língua.
Não é à toa que uma caixa com areia é equipamento indispensável para quem tem jardim; horas de entretinimento garantidas num mundo onde se dá largas à imaginação.

Arriscaria a dizer que um balde, pá e ancinho – sem esquecer a peneira, onde sempre aparecem tesouros improváveis – são os brinquedos mais habituais em cada casa, sem distinção de género, gerações, classe, nacionalidade. E esquecê-los em casa, a caminho de um dia na praia, é drama pior do que não ter trocos para o gelado.

Na memória de qualquer um de nós há, de certeza, faustosos castelos, buracos feitos à borda d’água na esperança, vã, que se enchessem com a maré, túneis escavados até onde o braço chegava. Manhas que nos distraíam das horas que faltavam até à hora do banho ou nas manhãs nortenhas de vento e nevoeiro.

Na memória dos meus filhos há tudo isso, mais os barcos decorados com algas e conchas, onde são marinheiros destemidos e náufragos a lutar contra a teimosia das ondas. E ao fim do dia ainda serve para o (as)salto ao barco; ganha quem voar mais alto.

Agora que vão crescendo, as competições familiares transformaram-se em corridas de caricas, depois de elaborada pista com curvas apertadas, rampas, quedas fatais, num jogo de paciência e perícia.

6_Caricas

E mesmo quando as marés apagam todos os vestígios resta sempre o mais importante: a cumplicidade, as gargalhadas, as memórias, as raízes que nos agarram ao essencial.

E guardam-se momentos inesquecíveis, como o dia em que encontrei uma sereia deitada na areia: o meu maior feito (juntamente com um pirata esquivo).

Comida aos bocadinhos

O termo foi inventado pelo benjamim da família para nomear um dos seus pratos favoritos. Na verdade, de todos nós, incluindo a cozinheira que, chegadas as férias escolares, começa a desesperar com falta de ideias para refeições.

Comida aos bocadinhos são os restos que vão ficando no frigorífico mas que nunca chegam para uma refeição completa. Um bocadinho de carne, um pouco de arroz e outro de massa, restos de peixe ou de frango que se transformam num delicioso paté (1 colher de iogurte, 1 colher de maionese, gotas de limão e garam masala a gosto), a que se acrescentam uns ovos mexidos ou um cuscuz, que se prepara num instante.


Há alturas quem me dá para ser criativa e às gemas dos ovos cozidos acrescento pesto, voltando a encher os buracos com essa pasta.

Nos dias mais quentes, recorro às frutas, às saladas com sementes, a taças de nozes ou amendoins, às vezes até a um pacote de batatas fritas.

Noutros dias, na mesa apresentam-se rolinhos de fiambre, cubos de queijo, azeitonas, inteiras para ir mordendo ou em pasta para barrar no pão, uma lata de atum ou sardinhas.

Com comida aos bocadinhos nenhuma refeição é igual, e é isso o que faz dela uma festa, por mais simples que seja.

NÃOstlé

Nos artigos e posts que escrevo só menciono nomes de marcas quando é absolutamente necessário. Ou então por distração porque, mesmo involuntariamente, alguns produtos acabam por se impor no nosso vocabulário. Ainda recentemente editei um texto, acabado de enviar para publicação, alterando a palavra nutella para a mais genérica designação de creme de chocolate com avelã.

Sei que sou picuinhas, afinal de contas digo jipe (da jeep) se falo de um carro todo-o-terreno, passei a juventude a vestir kispos quando o frio obrigava ao uso de anoraques e ignoro se existe outra palavra para x-acto, nome da empresa americana que comercializa produtos para escritório. Mas, por norma evito fazê-lo.

Pois bem, hoje vou fazer uma exceção: este post estará repleto de menções a empresas e marcas. Porque é necessário.

Como em muitos lares portugueses, também aqui entrou nescafé, nesquik, nestum e uma miríade de cereais de pequeno-almoço. Aos poucos fui fazendo alterações na alimentação, pelo excesso de açúcar e outros ingredientes desnecessários que via na lista de ingredientes. O chocolate em pó foi substituído por cacau, a que cada um adiciona o açúcar que quer, tendo mais consciência do que consome – eu, que gosto imenso de um leite com chocolate no inverno, descobri que se juntar um pouco de canela ao cacau posso prescindir de qualquer adoçante.

Café solúvel era raramente usado, pelo que um frasco de nescafé durava imenso tempo, e as crianças deixaram de apreciar nestum. Sobraram os outros cereais, com anúncios tão apelativos na TV e uma imensa variedade de formas e sabores, além de brindes, que se iam acumulando na caixa de coisas inúteis.

Até que, numa noite de insónia, vi um documentário sobre a marca que a nestlé e a coca-cola deixam no mundo. As mães que em Chiapas (o mais pobre Estado do México) alimentam os bebés com leite em pó diluído em coca-cola (porque não têm acesso a água potável e a bebida com cafeína é mais barata e mais acessível) e os navios pintados com a sigla da nestlé a subirem o Amazonas ávidos de novos consumidores, deixaram-me a certeza de que não é uma pegada, mas uma rasto enorme e sujo aquele que estas empresas deixam no mundo.

Há muito que percebi que manifestações, assinaturas, likes e posts revoltados no facebook pouco adiantam, se logo a seguir seguirmos a nossa vida da forma habitual. E que a única forma de fazermos mudanças é através da carteira, ou seja, das escolhas que fazemos na altura de comprar. Por isso, quando uns dias mais tarde vi este vídeo, que mostrava o total desprezo que a nestlé tem pelos recursos naturais resolvi banir qualquer das suas marcas do meu cesto de compras. Não foi fácil, porque a teia da nestlé estende-se a cada dia, abrangendo agora um número muito grande de empresas que costumavam ser portuguesas (no café só a Delta escapou). Mas também não foi um drama, há sempre outras alternativas.

Dir-me-ão que o meu gesto é insignificante, que os alicerces da maior empresa alimentar do planeta não tremem quando um simples cliente deixa de comprar os seus produtos. Mas a verdade é que os sucessivos boicotes mundiais à nestlé são tão significativos que obrigam a uma justificação no site da empresa, embora aqui seja dado destaque ao boicote iniciado nos anos 70 e não ao que se passa na atualidade.
Ainda recentemente, a pressão de várias ONGs fez com que a água engarrafada da nestlé não estivesse presente no pavilhão da Suiça, na Expo 2015 em Milão. Aliás, a água, que a nestlé quer privatizar e utilizar a todo o custo (mesmo em locais afetados pela seca) tem sido a causa dos protestos e boicotes mais recentes.

Por cá o movimento ainda é quase inexistente ou ignorado, mas porque o saber não ocupa lugar, aqui fica lista dos produtos comercializados pela nestlé em Portugal.

No Brasil são estes.

A escolha agora é vossa. A minha já foi feita.

Dar-lhes tampa

Num dos primeiros posts que escrevi neste blog falava dos eletrodomésticos que tinha posto de parte e dos que nunca tive. Ausente de todas as casas onde vivi esteve sempre o micro-ondas; mais por acaso do que por qualquer posição em relação ao dito. Com o tempo, além dos potenciais malefícios para a saúde, descobri que não lhe sentia a falta. Por feitio, hábitos, modo de vida, acabei por encontrar outras soluções.
Acontece, quando vou para a cozinha saltar-me a tampa. Sobretudo quando quero uma refeição rápida, saborosa e saudável. Ou seja, salta-me a tampa com facilidade.

Quando quero legumes salteados apenas com um pouco de azeite, salta-me a tampa para cima da frigideira. Desta forma mantêm a cor e todo o sabor.
Se do dia anterior sobrou arroz, basta salteá-lo com um pouco de manteiga e uma pitada de caril e, voilá!, há um prato renovado na mesa.

Salta-me a tampa quando a ideia é estufar peixe, a que acrescento o que houver no frigorífico: tomate, pimento, ervilhas, alho-francês… Bastando juntar um pouco de água ou um pouco de vinho branco, a refeição é cozinhada no suco dos próprios alimentos. E uns bifes de frango, regados com sumo de laranja? Em dez minutos está feita uma refeição tão apetitosa como saudável.

Obviamente, também me salta a tampa ao pequeno-almoço quando, em vez de ovos mexidos, opto por os escalfar num ninho de espinafres, sem outro líquido senão o que se liberta das folhas.

O melhor é que nem sequer é preciso comprar frigideiras com tampa. Há à venda tampas de todos os diâmetros, que encaixam nos utensílios que já temos em casa. Normalmente, por menos de 5€ fica resolvida a questão.

E assim continuarei a dar tampa ao micro-ondas.