Missão férias: resgate do lixo

As férias fora de casa podem servir para muitas coisas: quebrar a rotina, conhecer sítios novos, entrar em contacto com outras formas de estar e de viver, provar novos sabores e formas de cozinhar, construir memórias e estreitar laços, descansar, … a lista é longa e cada um fará a sua, com prioridades diferentes.

Não servem, pelo menos para nós, para relaxar no que é importante. E importante é carregar na bagagem diária o respeito pelos outros e pelo ambiente que nos rodeia.

É por isso que quando vamos para o poiso habitual na Galiza, no final da estadia vimos com o carro carregado de vidros e papel até ao ecocentro mais próximo. Não é por estarmos fora de casa que deixamos de separar o lixo. Os cantis, para encher com água da torneira, também viajam sempre connosco, seja para um destino próximo ou distante.

Não é por estarmos de férias, que passamos mais tempo no duche ou deixamos as luzes acesas sem necessidade; o facto dessas despesas estarem incluídas no preço da estadia não nos leva a a achar que podemos desperdiçar recursos sem problemas de consciência. O mesmo com as tolhas de banho, que não mudamos mais vezes do que faríamos em casa. O mesmo com tudo, enfim.

Por isso, é com naturalidade que os garotos interrompem um passeio de caiaque para trazer para a margem um enorme volume que andava a vogar por ali. Infelizmente, o mar continua a ser o caixote do lixo que se encarrega de levar para longe ou para as profundezas aquilo que ninguém quer.

Desse “lixo” temos vindo a recolher nos areais galegos caixas que os pescadores deitam ao mar, sabe-se lá porquê. Se há uma ou outra que se encontram partidas, muitas encontram-se em perfeito estado, jazendo na praia à espera que as marés de inverno as levem novamente de volta para o Atlântico. Cá em casa vão encontrando destino, seja para conservar as colheitas da horta, seja para servirem como arrumo provisório da roupa a ser dobrada ou para ir depositando quinquilharias várias.

São gestos pequenos, que não mudam o mundo mas que o tornam um bocadinho, mesmo que só um bocadinho, melhor. E as férias também podem servir para isso.

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Correio arco-íris

Quem algum dia se correspondeu com um pen pal ponha o dedo no ar. Na altura (no meu caso, início dos anos 80) era quase a única forma de termos algum contacto com pessoas da mesma idade, com línguas e hábitos diferentes; um vislumbre de outra forma de estar, uma janela para outros mundos. A comunicação era lenta, sujeita a falhas e atrasos. Passavam-se semanas, meses, até ter resposta às cartas que enviava para França, Singapura e o Brasil, para ver finalmente uma fotografia das pessoas com que me correspondia, ser informada de notícias, passatempos, gostos musicais.

Havia também postais breves das férias de familiares e amigos, que muitas vezes chegavam depois dos próprios, mas eram sempre recebidos com surpresa e alegria. E postais com meninas bem comportadas a soprar velas em dias de aniversário. Havia as longas cartas para a grande amiga do liceu, a tentar colmatar o tempo que passávamos separadas nas férias, e também as cartas dos namorados, num rol de palavras doces.

Guardo toda essa correspondência em várias caixas, cuidadosamente arrumadas em maços de cartas, com fitas a identificar o remetente. Como um diário, fazem parte de quem eu fui, de quem eu sou. Revelam histórias de amizades, laços apertados desfeitos com o tempo, relações fortes que se mantêm ao longo destas décadas, encontros breves que criaram raízes.
Sei que, por mais que mude de casa, por mais minimalista que me torne, por mais arrumações que faça, estas caixas vão manter-se sempre comigo.

Por falar em arrumações, foi precisamente numa limpeza geral ao escritório que deparei com várias revistas a ocupar espaço precioso. Triagem feita, sobraram algumas destinadas ao caixote da reciclagem quando me lembrei que me faziam falta envelopes.

Sim, porque apesar desta época tecnológica, dos correios electrónicos que troco com uma amiga (com a intensidade da correspondência epistolar de outrora), da rapidez com que podemos informar os outros sobre qualquer coisa que nos aconteça, da eficaz agenda do Facebook, ainda gosto de celebrar os aniversários com um postal, de desejar Boas Festas da mesma forma, até de enviar cartas ocasionais, em modo correio lento.

Copiando descaradamente a ideia da Manuela lembrei-então de reutilizar algumas páginas dessas revistas para criar os coloridos sobrescritos que podem ver aqui. Para tanto bastou um envelope aberto a servir de molde, lápis, tesoura, cola, música de fundo e alguns minutos de sobra numa tarde a cheirar a primavera.

Agora, na próxima vez que for aos correios enviar uma carta e me perguntarem “azul ou normal”, vou poder responder, com um sorriso: “arco-íris”.

Dias assim

2016

O ano não entrou propriamente tão soalheiro como a imagem faz acreditar, mas começou com a promessa de uma vida mais saudável, mais mexida, mais fora de portas, com vontade de reunir com amigos mais vezes, em volta de uma mesa ou de uma toalha estendida no prado.
Começou também a terminar projetos vindo do ano velho, como o de coser as nossas iniciais a guardanapos de pano. Mais uma vez utilizei pedaços de ganga, debruadas a linha vermelha, num contraste que me agrada. Como duas iniciais se repetem, optei por dois tons de ganga. Não ficou uma obra de arte, mas cumpre a função e gostei do resultado.

E gosto mais ainda de brincar com as iniciais, que vou trocando ao sabor do momento e da disposição.

Porque há dias de plenitude…

Alma

… dias em que à mesa se alimentam os sonhos…

Mala

… e outros dias, de regozijo ou desalento (e a mesma palavra pode significar tanta coisa).

Lama

Afinal a vida é feita de dias assim e assado. Sirva-se, com apetite.

De sacos cheios

Está a tornar-se um hábito, transformar velhas calças de ganga em objetos úteis. Foi assim com as pegas de cozinha, com bolsas para telemóveis, com apliques em guardanapos (trabalho em curso). Há umas semanas precisei de substituir os guarda-sacos, feitos por mim e já com muitos anos de uso.

Lembrei-me então que a forma mais fácil e rápida de o fazer (não me ajeito com máquinas de costura e faço sempre tudo à mão) seria aproveitar as pernas das calças, que já têm a forma pretendida, sendo apenas necessário cortar à altura que precisava.

Na bainha existente bastou descoser um pouco a costura, para poder passar o cordel que serve para pendurar os guarda-sacos. Só na parte de baixo tive de coser uma dobra, para meter o elástico. Como também reutilizo os sacos para fruta e legumes, fiz os dois em tons diferentes. E assim tenho sempre sacos à mão, quando tenho de ir às compras.

Para quem precisar saber com mais pormenor como se faz um guarda-sacos, há bastantes tutoriais mais detalhados. Como este, que aproveita pedaços de tecido, ou este bem mais simples. Há ainda outras alternativas, aproveitando garrafas de refrigerantes, que podem ser feitas com a ajuda das crianças de casa. Seja em versão divertida ou então mais elegante.

Dos avós

Dos meus avós pouco mais guardo do que memórias. Nem isso: apenas fragmentos das memórias dos outros. Quando nasci já todos eles tinham partido, levados por doenças, maleitas genéticas, vidas duras, sofrimentos vários. Sobram algumas fotos, episódios soltos, muitos tios, um armário feito pelo meu avô materno.

O meu avô morreu há mais de 60 anos e não era carpinteiro. Que idade terá o armário e para que foi feito com tanta perfeição? Para adornar a primeira casa, após o casamento? Antes do nascimento do primeiro de dez filhos? Ou depois da morte precoce de três filhas? Para guardar os seus livros, ou lembranças que teriam de ser protegidas por portas de vidro antigo? Eis uma história que ficará por contar.

Hoje guarda alguns objetos e livros preferidos, não muitos porque com a idade (e muito caruncho) está a ficar cada vez mais frágil. Já foi fumigado, já lhe foram substituídas as tábuas da parte de trás, mas continua firme nos seus pés roídos, com os vidros originais, que o tornam tão precioso para mim.

Das mãos da minha avó guardo lençóis, alguns rematados por rendas delicadas, outros de uso mais corrente, sem adornos. Uns de algodão, outros de linho fino, um de linho mais grosseiro. Serão alguns do enxoval e outros da época em que a prole se multiplicava? Nunca o saberei.
Como são todos demasiado estreitos para as camas de hoje, dei uso diferente aos mais resistentes. Em vez de nos embalar os sonos, agora assistem às refeições, como toalhas de mesa. E levam com pingos e nódoas como todas, porque acho que as coisas devem ser usadas, guardadas nos armários de pouco servem.

Um desses lençóis, agora toalha, já me chegou com um grande remendo no meio, hábitos dos antigos que usavam tudo até à exaustão, ainda alheios ao estraga-deita-fora das últimas décadas.
Por ser mais fina, ou ter tido muito uso, foi nessa que aconteceu o primeiro rasgão. Como a minha arte na costura está longe de ser perfeita, resolvi compensar a falta de jeito com um remendo evidente, com o resto de uma outra toalha, vermelha.

Gostei tanto do resultado que fiz o mesmo quando ela sofreu outros rasgões. Agora tem quatro remendos de diferentes tamanhos. Às vezes imagino que daqui a uns anos será um grande patchwork, com poucos vestígios do tecido original.

Acreditem ou não, é a minha preferida, aquela que mais me apetece pôr na mesa quando os dias aquecem. Faz-me sorrir, esta toalha de verão, que já viu passar muitas estações.

Adenda: Não resisto a partilhar esta página, com todo o tipo de remendos, fabulosos na maioria.

Operação mãos limpas

Não sou de acumular coisas. Sempre que há algum objeto que deixa de ser usado, roupa que não serve, livro que não interessa guardar, dou-lhe outro destino que não seja ficar num caixote a ocupar prateleiras ou armários. E hoje em dia não faltam sítios onde o lema “o lixo de um homem é o tesouro de outro” pode ser posto em prática. Instituições de solidariedade, sites como o freecycle ou de compra e venda como o olx ou o custojusto, grupos de trocas no facebook, lojas de artigos usados, alfarrabistas, bookcrossing e bibliofeira, enfim, a lista é interminável.

Dito isto não gosto de deitar nada ao lixo, a não ser o que é mesmo lixo, ou seja, aquilo que não vai para o compostor, já não pode ser reutilizado nem serve para a reciclagem – e há tantas coisas que podem ser recicladas, além da trilogia papel/vidro/embalagens: óleo vegetal, rolhas de cortiça, tinteiros, tampas de garrafas de plástico, pilhas.

Foi por isso que durante meses fui guardando os pedacinhos de sabonete que sobravam nas saboneteiras. Sabia que havia de encontrar uma forma de os voltar a utilizar. Na internet não faltam sugestões, mas optei pela via que me pareceu mais rápida e eficaz: colocar os vários pedaços dentro de um collant velho ou meia puída. E assim tenho um sabonete para usar na lavandaria. E nenhum desperdício.

Um cesto com calças

Depois do último post, lembrei-me de outro velho par de calças, que agora me é muito útil nas noites de inverno. Não para aquecer as pernas mas para vestir o cesto onde guardamos os toros de lenha para a lareira.

É um cesto de vime, semelhante àqueles que eram usados nas vindimas, comprado há muitos anos da Ribeira do Porto. Muito bonito e resistente, mas com um problema: deixava no chão os pequenos resíduos da madeira – farpas, pedaços de líquenes, poeira. Improvisei várias alternativas que nunca resultaram na perfeição, até decidir comprar um saco que coubesse no cesto.

Quando desisti, por não encontrar o que procurava, lembrei-me de umas calças de linho que, além do mais, tinham uma cor que combinava na perfeição com o tom do vime. Como sempre, foi um processo de tentativa e erro, cortar e coser, para voltar a coser e cortar, até surgir o forro que precisava.

Vendo o cesto tão bem vestido junto à lareira, ninguém diria que usa calças de rascunho, embora no fundo haja ainda vestígios dos bolsos traseiros e os laços para segurar as pegas tenham sido feitos com parte da cintura.

Pegar e fazer

Se o momento da passagem de ano é indício de alguma coisa, este será um ano bom. Na altura das doze badaladas (que não ouvimos, por isso é muito provável que a celebração tenha sido desacertada), a casa enchia-se de alegria e gargalhadas, que se prolongaram noite dentro. Culpa de uma menina de 8 anos que, com uma paciência e tenacidade invejáveis, resolveu ensinar-me a pronunciar os “rr” como toda a gente (obrigada Matilde, lá chegarei). Culpa de amigos bem dispostos, para quem uma boa conversa à lareira é mais importante do que um jantar servido a horas.

Talvez porque foram dias curtos e noites longas, bem regadas a tinto e esta ginginha, o ano começou sem resoluções. Desta vez, não fiz promessas, planos, listas de projetos, que as dos anos anteriores ainda por aí estão, por terminar.

Se alguma decisão houve, foi de enfrentar as coisas e fazê-las, em vez de as remeter para o futuro, seja o dia ou o mês seguinte. Por isso, mal os amigos saíram, resolvi dar descanso a uma pega de cozinha que há muito merecia a reforma e fazer uma nova. Não fazia ideia de como a faria, nem de quê, até vasculhar o armário onde guardo a roupa velha para outros usos. Foi aí que vi umas calças de ganga rasgadas.

Ainda sem saber como fazer, escolhi o caminho mais fácil. Cortei a parte mais baixa das pernas e dobrei como um envelope. Tinha planeado meter lá dentro um quadrado de esponja, quando me lembrei que era preferível cozê-la ao tecido, o que fiz com alinhavos ligeiros. A bainha das calças serviu de aba do envelope. Em pouco mais de 20 minutos, enquanto ouvia as notícias, tinha uma pega pronta.

Gostei tanto do resultado, que resolvi fazer uma segunda, usando o mesmo método e material. Como guardo as minhas pegas numa gaveta, estas não precisam de uma argola para segurar. No entanto, achei que a primeira pega parecia incompleta e acrescentei uma argola na segunda, utilizando uma presilha das mesmas calças.

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Gosto de projetos que se vão construindo aos poucos, conforme a inspiração. Muitos mais haverá, neste ano que começa.

Embrulhos

Há coisas grandiosas que nunca farei: surf, escalar uma grande montanha, tocar contrabaixo, correr a maratona. E depois há aquelas coisas pequenas, que quase toda a gente faz, que também nunca conseguirei fazer, por muito que me esforce: saltar para um rio ou para uma piscina, por exemplo.

Ou então fazer embrulhos, com a rapidez e perfeição das meninas que trabalham nas lojas e que eu admiro com o fascínio de uma criança. O papel cortado na medida certa, os cantos dobrados como deve ser, a fita que encaracola com a passagem da tesoura. Podem dizer que eu também o faria, se tivesse prática suficiente. Duvido.

A verdade é que gosto muito de fazer embrulhos, embora nenhum dos meus invólucros alguma vez ganhasse um concurso de beleza. Dispenso o papel brilhante, as fitas cintilantes, os motivos natalícios, as etiquetas que dizem De… / Para…, para os distinguir doutras prendas envoltas em papel brilhante e fita cintilante. Prefiro papel craft ou outro qualquer que esteja guardado por aí. E depois faço etiquetas que dizem Para… porque De… todos sabem quem é.

No ano passado utilizei como fio o que outrora foi uma cama de rede. Vários anos a embalar adultos e crianças, muitos dias passados ao sol, acabaram por lhe ditar um fim. Ou um novo início, agora em forma de cordel para atar o que for preciso.

Este ano decidi identificar as prendas com a inicial de quem a vai receber. Mais simples é difícil. Nalguns casos, o papel escolhido para a inicial dá dicas do conteúdo. E mais não revelo para não estragar a surpresa…

Moral da história: não é preciso ter talento para fazer alguma coisa. Só vontade. Claro que isso não se aplica aos saltos para a água.

Estradas, cidades, ilhas

Quem me vir por aí a ler (e eu leio em todo o lado, basta ter dois minutos livres) há de pensar releio o mesmo livro vezes sem conta. É que tenho o hábito de encapar as obras que trago da biblioteca, que me emprestam ou que me chegam através do bookcrossing. E para isso reutilizo várias capas, conforme o tamanho e espessura do livro. Sempre com mapas, tão bonitos quanto inspiradores.

Gosto de guardar todos os mapas que encontro, sejam mapas de estradas desatualizados, atlas em desuso ou suplementos que vinham com as revistas que costumávamos assinar. Sei que, mais cedo ou mais tarde, lhes hei de dar uso apropriado. Podem servir para embrulhos, envelopes, etiquetas, marcadores, colagens diversas.

O mais evidente, para quem nos visita, são as capas de argolas para o arquivo que temos no escritório. Não há quem deixe de reparar e de elogiar as capas alinhadas na estante, logo abaixo da prateleira onde guardámos os guias de viagem (feitas ou simplesmente sonhadas). Mal sabem que os mapas foram postos nas lombadas para disfarçar um conjunto de capas desirmanadas em cor, tamanho e estado de conservação. Só quando se retiram da prateleira se nota que os meus dotes de bricolage deixam muito a desejar.

Foi também com um mapa (do planeta, com os fundos marinhos em relevo, em intensos tons de azul) que forrei a capa que o meu filho leva para a escola. Usada durante dois anos pela irmã, riscada e com os cantos gastos, é uma capa bem original, sem ostentar bonecos da moda nem referência a marcas conhecidas. Ele usa-a com muito orgulho, tal como eu me orgulhava da minha capa de liceu, toda forrada com selos das cartas dos pen pals, chegadas do Brasil, de Singapura, de França, num tempo muito anterior à internet e às redes sociais (quem se lembra?).
Sei que até ao fim do ano letivo aquela capa será forrada de novo, talvez com os planetas do sistema solar ou com as ilhas dos Açores. Pequenas magias feitas com uma tesoura e um pouco de fita cola.