Aboborar por aqui

Segundo os dicionários aboborar significa amolecer (pôr ou pôr-se mole) ou amadurecer (um plano ou uma ideia). Ou seja, o que devia estar a fazer agora era aboborar no sofá enquanto aboboro os muitos projetos com que tenho andado ocupada.

Em vez disso tenho andado a aboborar o que hei de fazer com o tsunami de abóboras que os vizinhos resolveram oferecer-nos.
Abororo-as, pois então. Ou seja, transformo-as em coisas moles: sopas, purés, estufados, compotas, bolos e tartes. Das entradas à sobremesa, aqui ficam algumas experiências que tenho feito.

Sopa de abóbora com caril
Numa panela grande, juntar azeite, 1 cebola cortada em pedaços e 3 dentes de alho. Quando a cebola estiver refogada, junta-se 1 colher de sopa de caril e 1 colher de chá de sementes de cominho. Mexe-se durante 1 minuto e depois acrescenta-se a abóbora cortada em pedaços e água. Se preferir, pode juntar curgete ou cenoura.
Depois de cozida, passa-se com a varinha mágica. Serve-se com um fio de azeite ou natas.

Abóbora assada com feta

Pré-aquecer o forno a 210º. Forrar o tabuleiro com papel vegetal. Colocar a abóbora cortada em pedaços pequenos, regar com um fio de azeite e temperar com sal e pimenta. Levar ao forno durante 20 minutos. Ao fim desse tempo, espalhar sementes de sésamo por cima das abóboras. Levar ao forno durante mais 10 minutos.
Antes de servir, junte vinagre balsâmico e pedaços de queijo feta esmagados. É ótima como uma refeição vegetariana ou como acompanhamento para um prato de carne.

Bolo de abóbora com mel
Fiz este bolo ontem, adaptado de outra receita (que levava farinha de alfarroba). É um bolo sem açúcar e sem glúten, mas penso que ficará igualmente bom se se usar açúcar (umas 6/7 colheres) em vez do mel e farinha de trigo normal. É muito fácil de fazer e fica húmido.
Como não é muito doce, houve cá em casa quem tivesse acompanhado a fatia de bolo com compota de uva. Ou queijo fresco. Experimentem.

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500 gr de abóbora
50 gr de coco ralado
3 ovos grandes
4 colh. sopa de mel
1 colh. chá de fermento
2 colh. chá de canela
4 colh. sopa de farinha de trigo sarraceno
1/2 colh. chá de sal fino
nozes picadas (opcional)

Cortar a abóbora em pedaços. Triturar primeiro o coco ralado e a seguir juntar a abóbora (crua) de forma a que fique tudo em puré. Numa taça, juntar os ovos e depois os ingredientes restantes. Levar ao forno a 180º durante 40 minutos.

Tarte de abóbora com especiarias

Esta é a tradicional tarte do Halloween ou Thanksgiving norte-americano, adaptada por uma amiga, que me passou a receita.

2 chávenas de puré de abóbora cozida
3 ovos
½ chávena de açúcar mascavado ou açúcar de coco
2 colh. sopa de mel
½ colh. chá de sal fino
1 colh. chá de canela
1 colh. chá de gengibre em pó
¼ colh. chá de cravinho em pó
¼ colh. chá de noz moscada em pó
¼ colh. chá de cardamomo em pó
1 colh. chá de raspa de limão
1 pacote de natas de 200 ml (melhor ainda: 1 pacote de natas frescas)
Massa quebrada ou areada, de compra ou feita em casa, conforme o tempo disponível.

Coze-se a abóbora e deixa-se escorrer bem todo o líquido. Depois de arrefecer, junta-se os ovos e os restantes ingredientes.
Forra-se a forma de tarte com a massa quebrada e deita-se o recheio. Este fica bastante líquido mas é mesmo assim. Há de cozer no forno a 220º durante os primeiros 15 minutos. Depois baixa-se para 180º e deixa-se mais 45 minutos.

As especiarias, exceto gengibre, costumo reduzi-las a pó na altura de usar, num almofariz. Depois passo por um coador pequeno, para evitar pedaços maiores. Escusado será dizer que, nesse caso, as quantidades são a “olhómetro”. Também costumo descomplicar: se não houver açúcares “especiais” faço com açúcar branco.

Depois das abóboras Menina, os vizinhos do lado resolveram ainda trazer algumas abóboras Porqueira (sim, são dadas aos porcos como alimento). Acho que vou para ali aboborar mais um bocado.

 

Trio de beterraba

Quem diria que a inspiração para um prato viria do Miguel Esteves Cardoso? O herói dos anos 80, que nos fazia descobrir novos sons vindos de Londres ou gargalhar com a forma acutilante com que analisava os hábitos portugueses, acabou por se tornar numa espécie de avô bonacheirão que agora nos fala dos prazeres da boa comida.

Um destes dias, à procura de receitas que utilizassem todas as partes das belas beterrabas que crescem na horta, acabei por encontrar a fórmula ideal. Como o MEC sou fã de beterrabas: cruas, cozidas, em saladas ou sopa, bem como de aproveitar os vegetais até ao tutano – passe a expressão carnívora.

Inspirada por uma das suas crónicas culinárias, fiz então um trio de beterrabas, utilizando as folhas cozidas, os caules salteados em azeite e a raiz crua, simplesmente raspada e polvilhada com sementes de sésamo. Comprovei que folhas são realmente uma delícia e os caules também não são de desprezar (lamento que a foto do prato não lhes faça justiça).

Sendo setembro um mês de recomeços, decidi que seria a altura ideal para iniciar um estilo de vida mais saudável. Começando pela alimentação, a chave de tudo.

 

Comida aos bocadinhos

O termo foi inventado pelo benjamim da família para nomear um dos seus pratos favoritos. Na verdade, de todos nós, incluindo a cozinheira que, chegadas as férias escolares, começa a desesperar com falta de ideias para refeições.

Comida aos bocadinhos são os restos que vão ficando no frigorífico mas que nunca chegam para uma refeição completa. Um bocadinho de carne, um pouco de arroz e outro de massa, restos de peixe ou de frango que se transformam num delicioso paté (1 colher de iogurte, 1 colher de maionese, gotas de limão e garam masala a gosto), a que se acrescentam uns ovos mexidos ou um cuscuz, que se prepara num instante.


Há alturas quem me dá para ser criativa e às gemas dos ovos cozidos acrescento pesto, voltando a encher os buracos com essa pasta.

Nos dias mais quentes, recorro às frutas, às saladas com sementes, a taças de nozes ou amendoins, às vezes até a um pacote de batatas fritas.

Noutros dias, na mesa apresentam-se rolinhos de fiambre, cubos de queijo, azeitonas, inteiras para ir mordendo ou em pasta para barrar no pão, uma lata de atum ou sardinhas.

Com comida aos bocadinhos nenhuma refeição é igual, e é isso o que faz dela uma festa, por mais simples que seja.

Com uma latinha de atum apenas

Adoro receitas assim: rápidas, simples de fazer e que agradam a toda a gente. Se forem económicas, tanto melhor. Esta é daquelas que tanto serve como refeição – se acompanhada por arroz ou uma salada -, para animar uma mesa de aniversário, para levar para um piquenique ou para casa de amigos, quando nos pedem uma entrada.

Os ingredientes são simples: uma lata de atum, uma embalagem de massa folhada (é preferível que seja quadrada, mas também pode ser redonda), duas colheres de sopa de maionese (ou então uma colher de maionese e uma colher de iogurte natural), queijo ralado (uso um pedaço de queijo flamengo ralado na hora), sementes de sésamo.

Junta-se o atum com a maionese e o queijo até obter uma pasta com que se barra a massa folhada estendida. Enrola-se e corta-se em pedaços finos – ao cortar, os pedaços ficam um pouco espalmados, mas voltam a ganhar forma com o calor do forno.

Depois de forrar o tabuleiro do forno com papel vegetal – eu uso aquele vem a embrulhar a massa folhada, para evitar desperdício extra –, colocam-se os rolos e polvilham-se com sementes de sésamo.

Vão ao forno até ficarem dourados. São servidos?

Rápido e bom

O drama de quem, como eu, tem de cozinhar todos os dias não é de o lidar com os tachos, mas com as ementas. Recusar a monotonia de cozinhar os pratos de sempre, elaborar um cardápio variado, pouco exigente em custos e em trabalho e que seja sempre saboroso, não é fácil. A tarefa pareceu-me ainda mais complicada quando vim morar para um sítio onde não há sequer uma pequena mercearia onde se vá num instante comprar o ingrediente que falta. Foi então que passei a criar menus semanais, que evitam as indecisões e idas frequentes às compras.

Isto para o jantar, a horas certas e com os miúdos à mesa. Porque o almoço resolve-se facilmente, com uma sandes, uma salada ou uns legumes salteados com a carne assada que sobrou do dia anterior. Ou então uma pasta de peixe, feita com iogurte, uma pitada de garam masala e algumas gotas de limão. A lista de refeições rápidas é infindável e várias vezes recorro à minha lista de receitas fast good.

Uma das preferidas cá em casa são os ovos com feta, que experimentei pela primeira vez num café em Istambul. Lembro-me que a conta dessa refeição simples quase me estragava a digestão – daria para pagar um almoço abundante para quatro, num restaurante turco com menos design -, mas valeu a pena porque passou a ser um recurso frequente.

Basta colocar numa taça individual de ir ao forno alguns cubos de feta e um ovo inteiro por cima. Rega-se com um fio de azeite e tempera-se com pimenta e algumas ervas aromáticas secas (orégãos, mangerição, tomilho, o que houve em casa no momento). Depois leva-se ao forno até a clara estar cozida (faço sempre sem contar o tempo, por isso o das foto ficou demasiado tostado). Penso que em 10 ou 15 minutos está pronto a servir.
Comemos com uma salada ou barrado sobre uma fatia de pão. Melhor ainda se for com pão de azeitonas feito em casa. Mas disso falarei noutra altura. Bom apetite.