Embrulhos

Há coisas grandiosas que nunca farei: surf, escalar uma grande montanha, tocar contrabaixo, correr a maratona. E depois há aquelas coisas pequenas, que quase toda a gente faz, que também nunca conseguirei fazer, por muito que me esforce: saltar para um rio ou para uma piscina, por exemplo.

Ou então fazer embrulhos, com a rapidez e perfeição das meninas que trabalham nas lojas e que eu admiro com o fascínio de uma criança. O papel cortado na medida certa, os cantos dobrados como deve ser, a fita que encaracola com a passagem da tesoura. Podem dizer que eu também o faria, se tivesse prática suficiente. Duvido.

A verdade é que gosto muito de fazer embrulhos, embora nenhum dos meus invólucros alguma vez ganhasse um concurso de beleza. Dispenso o papel brilhante, as fitas cintilantes, os motivos natalícios, as etiquetas que dizem De… / Para…, para os distinguir doutras prendas envoltas em papel brilhante e fita cintilante. Prefiro papel craft ou outro qualquer que esteja guardado por aí. E depois faço etiquetas que dizem Para… porque De… todos sabem quem é.

No ano passado utilizei como fio o que outrora foi uma cama de rede. Vários anos a embalar adultos e crianças, muitos dias passados ao sol, acabaram por lhe ditar um fim. Ou um novo início, agora em forma de cordel para atar o que for preciso.

Este ano decidi identificar as prendas com a inicial de quem a vai receber. Mais simples é difícil. Nalguns casos, o papel escolhido para a inicial dá dicas do conteúdo. E mais não revelo para não estragar a surpresa…

Moral da história: não é preciso ter talento para fazer alguma coisa. Só vontade. Claro que isso não se aplica aos saltos para a água.

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Uma coroa de Natal

Não sei bem porquê, mas foram precisos anos até me aventurar a fazer uma coroa de Natal. É uma época sempre complicada, as compras para as crianças a misturarem-se com aquilo que quero fazer, para oferecer aos adultos. E depois ainda os embrulhos, que gosto de aprimorar, mais o trabalho que se acumula com a urgência de final de ano.

“No próximo ano é que é”… e nunca era, por isto ou por aquilo, até o sábado passado. Fomos, eu e a garota, até ao monte, naqueles momentos a sós que nos sabem tão bem, a planear os dias antes do Natal pelo caminho. Até chegar às encostas sombrias cobertas de musgo, um pouco para o presépio aqui, um pouco para a coroa ali.

Mais acima, enquanto ela se entretinha a patinar sobre um pedaço de gelo espesso, encontrei um arbusto de roseira-brava, com os seus botões, há muito despidos de pétalas, de um vermelho intenso, natalício. Trouxe ainda alguns ramos cobertos de líquenes, porque gostei da cor.

Em casa tinha uma rodilha de palha, guardada há muito para este fim. Não vos vou aqui maçar com os pormenores da elaboração da coroa, porque o que fiz foi seguir os passos da Concha, que tão ilustra o método com todo o detalhe.

Ficou mais tosca, a minha, mas gostei muito do resultado – e o resto da família também…

Pena é que a cadela tenha resolvido entreter-se com a novidade pendurada na parede exterior. Não sobrou nada, nem sequer rodilha que se aproveitasse.

No próximo fim de semana, já tenho planos: apanhar musgo e botões de roseira.

Dias felizes

Nesta altura começa o ritual de escolher uma foto para enviar os votos de Boas Festas por e-mail, que simbolize a época naquilo que ela tem de recolhimento e alegria. Seria difícil escrever um postal a todos a quem queremos desejar um bom início de ano (com mais ou menos festejos, a data é sempre simbólica) e um Natal em boa companhia, por isso a opção eletrónica é cada vez mais habitual.
Mesmo assim, gostamos de receber postais e de escrever aos que estão mais distantes, ou mais perto do coração.

Há uns anos, que os faço com os miúdos, naquela que passa a ser mais uma tradição aguardada. A mesa enche-se de tesouras, lápis e marcadores, cartolina, papel que vamos guardando, restos de embalagens (as prateadas dão lindas estrelas), algodão. Aos poucos, com traços mais ou menos direitos, as obras vão surgindo, com ideias originais ou alguma inspiração daqui e dali.
Cada um feito a pensar em quem o vai receber e exposto no parapeito da janela, até o dia em que saem todos para o correio.

Uns viajam até à Noruega, Bélgica, Inglaterra, Irlanda, muitos outros ficam-se por Portugal. Mas todos levam imenso carinho e o gozo que nos deu a fazê-los.