Norça! Comer urtigas?

Ando nisto há várias primaveras: lá para finais de março penso que tenho de estar atenta ao crescimento das urtigas, para as apanhar na melhor altura, mas há sempre qualquer coisa que acontece: um pico de trabalho, semanas de chuva, uma pitada de distração e num instante, quando dou por isso já as urtigas espigaram, passando da época para serem colhidas.
Até semana passada. Com cesto, luvas e uma tesoura de podar fui para o campo, ou antes para os limites do meu terreno, onde tenho a certeza que as ervas não são atingidas por pulverizações daninhas.

Enquanto vou colhendo folhas e rebentos mais tenros pergunto-me quando é que esta planta deixou de ser consumida de forma regular. Afinal tem vastas propriedade terapêuticas, é rica em vitaminas, ferro e magnésio, em tempos foi mesma usada em têxteis. Além disso pode ser usada em inúmeras receitas culinárias, de sopas a bolos. No meu caso, e porque tinha ouvido dizer maravilhas, optei por fazer um esparregado.

Claro que dá mais trabalho do que usar espinafres. É precisar usar luvas enquanto se separam as folhas dos talhos, que têm demasiada fibra. Mas depois de 1 ou 2 minutos a ferver em água, as urtigas perdem o seu poder urticante podendo, a partir daí, ser usadas para vários fins. Acham que é uma excentricidade? Então vejam estas receitas: de pesto a piza, de quiche a lasanhas, tudo se pode fazer com urtigas.

Se as urtigas terão desaparecido dos hábitos culinários de Trás-os-Montes (apesar de constarem em livros de receitas da região), o mesmo não se poderá dizer da norça. Esta planta trepadeira continua a fazer parte das refeições dos meus vizinhos, que a consomem em ovos mexidos depois de salteados num pouco de azeite e alho. Têm de ser apenas os rebentos mais tenros, dizem-me eles, e não deve ser consumida em excesso. Colhi-os no mesmo recanto sombrio e experimentei fazer uma omelete.


Acompanhada de uma salada de meruge é que sabia bem… mas isso fica para outra colheita.

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Receita para um almoço de verão

Para começar, deixe a ideia de aproveitar a sombra das nogueiras e cerejeiras-bravas para um almoço a marinar durante vários anos. Para isso junte um punhado generoso de procrastinação, uma colherada de argumentos válidos e falta de planeamento q.b. (esta fase é opcional e, na verdade, pouco aconselhável. Salte diretamente para o passo seguinte).

Aproveitando a altura de cortar o feno, peça uma dezena de fardos ao vizinho. Use dois deles para montar a mesa, aproveitando a tábua que tanto serve de rampa de skate como para jogos de pingue-pongue. Reserve os restantes para servirem de assento.

Misture velhas cortinas e lençóis puídos, uma tábua que já teve outros usos, cordas e espeques de campismo. Combine todos os ingredientes até ter uma mesa de apoio no lugar mais fresco.

Com alguns dias de antecedência, vá preparando cubos de gelo para sumos e limonada, e para manter as bebidas frescas (a alternativa é comprar gelo, mas pense que vai pagar 20 vezes mais por água da torneira congelada e trazer embalagens de plástico inúteis. Evite a alternativa).
Se tiver marcadores de copos, use-os. Caso contrário, lembre-se dos rolos de washi tape (fita cola japonesa, de papel) que tem guardado para usos vários. Assinale os copos com as cores que tem disponíveis. Repita a operação, de forma a que todos fiquem diferentes. (fios coloridos ou pedaços de pano servirão para o mesmo efeito. Procure alternativa).

Junte duas crianças, cordel, papel de seda colorida e agrafos. Mantenha a paciência em forno lento, vá acrescentando doses de incentivo aos poucos. Um par de horas depois terá umas belas bandeirolas para pendurar.

No dia anterior faça pão de azeitona, vários patês, dose a dobrar de gelado de limão. Todas as saladas, fruta cortada e outros pratos serão feitas no próprio dia. Não complique, elabore uma ementa simples – de qualquer forma vai sobrar uma montanha de comida.

Decore com flores silvestres apanhadas na frescura da manhã, colocadas em garrafas usadas, suspensas por arames na cerca que rodeia o local.

Espalhe mantas e almofadas para a sesta de quem quiser.

Sirva acompanhado com um grupo heterogéneo de amigos, bebidas frescas, conversas cruzadas, gargalhas soltas.

Repita sempre que possível.

Olá verão

 

Esqueçam o calendário. Cá em casa, o verão só começa realmente quando o toldo que dá sombra para a cozinha está montado, a cortina espanta-moscas pendurada, a piscina instalada no sítio do costume.

E com a estação, chega o misto de alegria e frustração. Por um lado termina a rotina de acordar às horas certas e os horários marcados pelos alarmes diários: das aulas, dos ensaios, dos treinos, dos concertos. Chegam convites para piqueniques. Começam a marcar-se idas ao rio, procura-se espaço na agenda para a semana junto ao mar ou a vinda do primo para a quinzena do costume. Por outro lado, corre-se o sério risco de que o verão se transforme num ramerrame igualmente monótono de limpezas e arrumações que foram deixadas por fazer ou demasiado tempo livre passado no computador.

Por isso, a cada ano tentamos encontrar novas ideias ou então repetir as que funcionaram no passado.

Procurar pirilampos
Demorei anos a descobrir que havia pirilampos na minha aldeia. Lembrava-me com saudades das noites quentes em que saíamos (um rebanho de primos) para procurarmos pontinhos luminosos junto aos muros e do fascínio que era tê-los na mão, a apagar e a acender. Até que um dia vi um e outro, e outro mais à frente. Agora sei que basta estar atenta. Eles andam aí, só é preciso saber procurar.

Piquenicar ao luar
Numa noite de lua cheia um piquenique pode ser tão bom ou melhor do que durante o dia. Evitam-se as horas de maior calor, há sombra garantida e as moscas já foram voar para outra freguesia. Se for no campo, convém ir protegido contra os mosquitos. Para a praia basta um casaco… ou encontrar madeiras trazidas pelo mar para fazer uma fogueira.

 

Mergulhar no rio
Adoro o mar, quem não gosta? Mas não há nada como um banho no rio. Ou melhor, nos rios: cada um com uma identidade diferente. Uns gélidos, outros quase cálidos, transparentes ou cor de lodo, os que deslizam numa mansidão de curvas ou saltam entre poças e cascatas. Que sorte tenho, viver rodeada de rios e a cada verão descobrir um pedaço novo, onde estamos nós, as libelinhas e o rumor da água. Nada mais e isso é tanto.

Espreitar as águas
No mar ou no rio, não há nada mais relaxante, nada que nos tire deste mundo e nos transporte para um universo fantástico, como colocar a cabeça debaixo de água para espreitar o que se esconde no fundo. E não é preciso mais do que um tubo e uns óculos de mergulho. Descobertas infinitas e emoção garantida.

Navegar por aí
Um barco ou um caiaque que nos leve a descobrir novos recantos. No rio, na costa, nos lagos. Se houver lanche, chapéu e toalhas a bordo, temos programa para a tarde inteira.

Inventar, inovar, imaginar
Jogos, receitas, músicas e histórias. Descobrir novos destinos e caminhos, experimentar novos sabores, ir mais além ou então ao sítio ali ao lado que está à nossa espera desde sempre. Andar descalço, à chuva, ao molhe. Escrever postais (como dantes), um relato das férias a várias mãos. Apanhar conchas e amoras. Colecionar amores e sorrisos.

A cada ano inventar um novo verão.

Bem-vindo outono

Apesar das temperaturas mornas, do guarda-roupa leve, nas águas que ainda convidam a um mergulho (bem revigorante), é oficial: o outono chegou. Mesmo imaginando uma vida sem calendários ou avisos da hora exata da entrada na estação mágica, os sinais seriam inequívocos. Já partiram os bandos chilreantes de pássaros deixando em seu lugar o crocitar melancólico das gralhas e dos corvos. Agora há brumas matinais, nozes e maçãs pelo chão, vizinhos que nos enchem a casa de abóboras, um recolhimento interior e vontade de retomar as tradições que inventámos para nós.

E assim o outono vai entrando na nossa vida pé ante pé, até ao dia em que sabemos que se instalou para ficar. É o dia de festa em que acendemos a lareira pela primeira vez. Porque parece um ritual sempre novo; encher o cesto com lenha, fazer bolas de jornal para uma combustão rápida, acender o fósforo iniciático e depois ficar quietos no sofá, hipnotizados pela dança das chamas e do crepitar dos galhos.

Ao entrar no sexto outono que passamos em Trás-os-Montes, ainda me custa a acreditar que toda a lenha usada na lareira venha das poucas árvores que nos rodeiam a casa. Não é um pequeno bosque, sequer: ulmeiros doentes a ladear os taludes, ramos de nogueiras antigas que secam com o tempo, cerejeiras a descair para o terreno contíguo. Coisa pouca. E, no entanto, suficiente para encher o canto da lenha (construído pelo marido, que descobriu talentos desconhecidos desde que se mudou para o campo), para mais um outono, mais um inverno.

Sermos nós a cortar, transportar e guardar a lenha, tem ainda uma vantagem, apontada por um vizinho, com o habitual humor transmontano: “Aquece agora e aquece depois”. Só benefícios, portanto.

Construções na areia

É alvo dos primeiros fascínios. Mal se consegue sentar, qualquer criança posta na praia tem curiosidade de saber que material estranho é aquele, que tanto escorre pelos dedos, como se forma numa bola à medida das suas mãos, que é frio, quente, seco, molhado. Que sabe bem ou mal, conforme os gostos, mas não se desfaz na língua.
Não é à toa que uma caixa com areia é equipamento indispensável para quem tem jardim; horas de entretinimento garantidas num mundo onde se dá largas à imaginação.

Arriscaria a dizer que um balde, pá e ancinho – sem esquecer a peneira, onde sempre aparecem tesouros improváveis – são os brinquedos mais habituais em cada casa, sem distinção de género, gerações, classe, nacionalidade. E esquecê-los em casa, a caminho de um dia na praia, é drama pior do que não ter trocos para o gelado.

Na memória de qualquer um de nós há, de certeza, faustosos castelos, buracos feitos à borda d’água na esperança, vã, que se enchessem com a maré, túneis escavados até onde o braço chegava. Manhas que nos distraíam das horas que faltavam até à hora do banho ou nas manhãs nortenhas de vento e nevoeiro.

Na memória dos meus filhos há tudo isso, mais os barcos decorados com algas e conchas, onde são marinheiros destemidos e náufragos a lutar contra a teimosia das ondas. E ao fim do dia ainda serve para o (as)salto ao barco; ganha quem voar mais alto.

Agora que vão crescendo, as competições familiares transformaram-se em corridas de caricas, depois de elaborada pista com curvas apertadas, rampas, quedas fatais, num jogo de paciência e perícia.

6_Caricas

E mesmo quando as marés apagam todos os vestígios resta sempre o mais importante: a cumplicidade, as gargalhadas, as memórias, as raízes que nos agarram ao essencial.

E guardam-se momentos inesquecíveis, como o dia em que encontrei uma sereia deitada na areia: o meu maior feito (juntamente com um pirata esquivo).

Um jardim

Nunca sonhei com um jardim. Na verdade, também nunca sonhei com uma casa, talvez porque sou pouco apegada aos sítios e às coisas. Nas vezes que imaginava uma casa que fosse minha, o que me via eram janelas e alpendres. Mais do que a casa em si, vislumbrava os lugares onde estaria pousada: no meio de um bosque de bétulas, junto a praias agrestes ou lagos plácidos, ligeiramente acima dos telhados, nas raras ocasiões em que pensava numa habitação urbana.
No meu ninho imaginado, o mais importante era o mundo que estava para lá dele. Continua a ser. Agora vivo numa casa de largas janelas, com uma vista espantosa, que nunca cheguei a sonhar e hoje é a minha realidade. Belisco-me e ela continua lá, com os seus nevões, os seus arco-íris sobre a oliveira, as suas cores de outono que mudam todos os dias, visitada por rebanhos que chegam ao fim da tarde.

Mas voltemos ao jardim que nunca sonhei, e por isso foi sendo criado ao acaso. O primeiro a inaugurar a terra foi um alecrim, trazido do monte por um amigo, seguido por outras ervas aromáticas (orégãos, manjerona, um tomilho rasteiro, cujo nome esqueci) e uns pés de plantas com bagas, que não encontraram ali o seu melhor poiso. O resto veio com tempo, plantado à toa a cada outono (e já passaram quatro deles): rosmaninho, vindo do monte também, tomilho bela-luz, encontrado na berma dos caminhos, um pé de salva dado por uma vizinha, que a cada ano duplica de tamanho. As papoilas chegam sozinhas, acomodam-se no seu canto, prologam ou encurtam a estadia conforme humores que não entendo. Rebeldes, compõem o quadro de uma forma que eu nunca seria capaz.

O melhor do meu jardim é que parece ter sido feito por medida, para pessoas como eu, que pensam mais no mundo do que na casa. Vive da água que cai do céu, mais uma rega ocasional quando o calor aperta. O rosmaninho é podado no final do verão, as aromáticas são cortadas quando os cozinhados pedem.
Chamo-lhe jardim mas nem isso é, apenas um canteiro comprido ou aquilo que se quiser chamar a esta amálgama de plantas diversas, flores silvestres, ervas daninhas. Um espelho de mim, talvez.

Respiga de outono

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Jean-Claude é um amigo suíço que vive na ilha do Pico há mais de 20 anos. Homem de mil ofícios, é acima de tudo um chef de primeira linha, autodidata, que tem um enorme prazer em cozinhar. Quando nos visita, cedo-lhe os tachos e aventais porque ele faz questão de nos preparar refeições memoráveis, que relembraremos durante anos a fio. Eu limito-me a ficar ao lado, à conversa com copo de vinho, a tomar nota daquilo que ele faz, e mais tarde arrumo na pasta “receitas do João”, mas raramente me atrevo a tentar. Sei que me vai faltar o seu toque mágico, a pitada disto e daquilo que adiciona à medida que vai provando, mais o tempo certo para apurar. Na cozinha, o João é um intérprete de jazz, um improvisador nato e talentoso.

O que mais gosto é vê-lo a sair para o campo com uma cesta e voltar com ela cheia de coisas que apanha por ali, dizendo com o seu delicioso sotaque açoriano
“Vocês têm tudo aqui. Têm tudo”.
Tudo são as maçãs do chão do lameiro, com que ele prepara uma sobremesa, são as castanhas que acompanharão um assado num dia, e no seguinte servirão para uma sopa com cogumelos com um toque de caril, são as uvas transformadas num molho a acompanhar perna de borrego na brasa – isto no outono. Na primavera são as folhas de chicória e dentes-de-leão que eu não saberia distinguir entre as ervas rasteiras e ele traz para casa para servir numa salada diferente.

Não tenho o talento do João nem da Monique (cuja especialidade são as sobremesas e as compotas a que dá sempre um toque invulgar), mas sei que nesta altura o campo está cheio de coisas a que ninguém dá uso ou valor. Maçãs pequenas, bichadas mas sumarentas, gordas amoras, abrunhos silvestres, lindíssimos frutos vermelhos dos pilriteiros com que se faz uma geleia que ainda hei de tentar fazer.

Para já limitei-me a fazer uma compota de maçã com cravinho e cardomo, a indispensável compota de amoras, cuja confeção me remete sempre para os passeios de bicicleta que fazia para apanhar os frutos negros nas tardes de setembro antes do começo das aulas. E o licor de abrunhos silvestres, que passou a ser tradição da casa desde que me aventurei a fazê-lo no outono passado.

Vim a saber que este licor é uma especialidade do País Vasco e de Navarra, que ali toma o nome de pacharán e é preparado com anis. Mas a receita que tenho é inglesa, e por isso elaborada com gin.
O resultado será um gin rosado e aromático, ideal para juntar a água tónica e saborear no verão, sentados lá fora, ao lado da sebe de abrunheiros e roseiras-bravas.

Na mouche

Há alturas assim. A novidade da ausência de horários já passou, os longos dias em casa esgotaram as brincadeiras, os DVDs foram vistos e revistos, e as horas diárias em que o computador é permitido ainda não chegaram. É então que se ouve a frase (batida) “não sabemos o que fazer”. Há dias em que me salta a resposta “Pensem, há sempre coisas”, às vezes acompanhado de um desnecessário, “na tua idade nunca me aborrecia”, porque sei que, muitas vezes, é destes momentos de tédio que lhes surgem as melhores ideias.

Nesse dia, não. À mesa foram surgindo sugestões que o pai escrevinhou numa lista. Um deles foi atirar ao alvo, mas do alvo propriamente dito só sobravam os dardos; uma noite à chuva tinha ditado a sua morte precoce. E porque não fazerem um novo?

No início, a ideia foi acolhida com alguma resistência, mas em breve estavam os dois envolvidos na tarefa. Contra o que é costume, declinaram a ajuda do pai, que se ofereceu para cortar um pedaço de roofmate (restos da construção da casa) à medida. Lembraram-se de que sabiam onde havia pedaços pequenos e que os poderiam colar.

Embrenhados noutras tarefas, desaparecemos. A dois, com ideias de um e de outro, o alvo foi tomando forma. A minha colaboração só foi necessária para cortar com x-acto um pedaço de cartão, mas logo fui dispensada, sobretudo depois de perguntar porque não faziam o alvo redondo, como é habitual. Uma pergunta de adulto, claro.

A verdade é que as ideias “fora do quadrado” também funcionam bem, e o alvo (retangular) tem dado para muitas horas de diversão. Quanto a mim, estou muito orgulhosa, porque além do robusto resultado, e de os ver a levarem uma tarefa até ao fim sem qualquer discussão, consegui a melhor pontuação da família, até agora.

E agora vou lá para fora treinar, antes que eles me tentem superar.

Que nem ginjas

A primavera despediu-se sem ginjas, mas o verão nasceu quente e ofereceu-nos esse prodígio em doses generosas. Já perdi a conta às ginjeiras que tenho no fundo do campo (creio que são 26, mais as que vão crescendo à toa – um dia farão um belo pomar), todas elas carregadinhas de frutos redondos e saborosos. Quem diz que são ácidos nunca provou uma ginja madura, a sua polpa suave que se desfaz na boca e deixa na língua um leve travo a amêndoa.

Como-as às mãos-cheias sem culpa, enquanto apanho aquelas a que consigo chegar. Tivesse o dia 48 horas, metade desse tempo seria passado à sombra das ginjeiras, a ouvir trinados que me inspirassem odes ao fruto escarlate e a pensar no que fazer com tanta fartura, a que nem os pássaros dão vazão.

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Como o dia tem apenas as horas regulamentares, resta-me roubar um pedaço aqui e ali para conservar o seu sabor. Deitei o sono para trás das costas para encher sacos para dar aos amigos, fiz ginjinha para beber daqui a um ano….

Ginginha

…doce para barrar o pão caseiro (com sumo de lima que lhe fica tão bem) …

… e o melhor gelado de sempre.

gelado

Gosto de ginjas porque me sabem a dias longos, a momentos efémeros, a frutos raros. Gosto de ginjas porque não se embalam nem se vendem por aí. Gosto de sabores que deixam saudades.

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Passou a época. Prenhes de sol e de açúcar, os frutos pendem das árvores, como enfeites de um Natal já vivido à espera de serem arrumados.
Só daqui a um ano voltarei a pensar em ginjas e no que fazer com elas.

Corta relva

Os lameiros estão em pousio. É preciso que o feno cresça, para ter com que alimentar os animais durante o inverno. As alcatifas verdes, mantidas rentes ao chão pelos rebanhos, erguem-se agora numa euforia de flores, libertas dos dentes insaciáveis das ovelhas.

Entre o começo de abril e o final de junho os pastores têm de procurar outros lugares. Vão para os montes, para prados alternativos. Vão para mais longe, chegam a casa depois do sol se pôr.

Nós, em contrapartida temos um terreno bravio, onde só agora começa a despontar o projeto de uma pequena horta. Temos ervas com fartura, que crescem de forma descontrolada. Não tarda estão tão altas que as crianças se podem esconder lá pelo meio.
Por isso, nada melhor do que abrir os portões ao gado dos vizinhos, pagando-lhes toda as gentilezas que têm connosco.
Todas estas imagens foram tiradas ontem, com poucas horas de diferença. De manhã, entraram as vacas mirandesas do sr. Fernando, ao fim da tarde tarde, as ovelhas churras do sr. Adelino.

Enquanto se olha pelas ovelhas, um copo de vinho, dois dedos de conversa. E tanto se aprende com estes homens simples, que nos desvendam os seus mundos. Que as vacas, por exemplo, nunca virão depois das ovelhas, porque lhes sentem o cheiro.

Outros gestos não precisam de palavras. Quando o sino toca, o pastor retira o boné e fica de cabeça descoberta até que o eco das badaladas se perca entre as árvores dos cerros.
Gestos antigos de um tempo sem pressa – e tanto a aprender com quem nunca foi à escola.