Doçuras da horta

O título deste post pode ser enganador. Está longe de se referir à delicia que é ter uma horta, ou ao prazer que a atividade agrícola me traz. Na verdade, sou uma agricultora contrariada. Não por acaso, foram precisos quase três anos para me decidir a transformar um pedaço de terra fértil num local onde fizesse crescer algo comestível. E quando lá vou, sobretudo para regar, de costas curvadas para encaminhar a água com a enxada, não penso na maravilha de estar ao ar livre. Tal como não penso nos efeitos relaxantes de pôr as mãos na terra, ouvindo sinfonias de pássaros.

Normalmente penso naquilo que poderia estar a fazer com esse tempo, também ao ar livre, a ouvir os pássaros: ler um livro ou dar um passeio pelo monte, coisas que vou adiando porque a horta precisa de atenção.
E então porquê todo esse trabalho, tão a contragosto? Porque sei que dali poderei tirar aquilo que consumo, fresco, sem pesticidas nem herbicidas. Digamos, que não sendo por prazer, é por dever, comigo e com a família.

A horta, em contrapartida, paga-me o desprezo que lhe dedico com uma generosidade ilimitada. Desde abril, em troca da rega bi-semanal, já me deu alfaces, feijão-verde, cebolas e pimentos. Neste momento está numa produção acelerada de beringelas e tomates, enquanto mantém os alhos-franceses à espera que os vá colhendo. Entretanto, as abóboras vão crescendo a olhos vistos, prontas para transformar em sopas e doces outonais.

E ainda não falei nas curgetes, afinal o assunto de que trata este post. Os cinco pés oferecidos por uma amiga têm-se multiplicado numa avalancha de curgetes. Perante tamanha abundância, transformei-as em tudo o que me lembrei. Sopas aveludadas, salteados com alho e azeite, grelhados com um toque de orégãos, estufados… Até as fritei em pataniscas vegetarianas. Estava na altura de passar aos doces.

Fiz várias vezes o bolo de chocolate com curgetes, que costumo anunciar como tendo um ingrediente secreto. Depois de devorar a fatia macia e saborosa, já nenhuma criança torce o nariz quando sabe de que é feito, e até se atreve a repetir.

Depois experimentei uma receita que tinha guardada há algum tempo, e que tirei daqui. Com raspa de lima, em vez de limão, e sem a baunilha, as bolachas da horta, como lhes passei a chamar, foram um sucesso imediato.

Melhor ainda são os queques de curgete, com o seu travo aromático a gengibre, cravinho e canela. Mais uma vez, por falta dos ingredientes todos, modifiquei a receita. Em vez de nozes ou de sementes de girassol, usei sementes de papoila. O resultado excedeu as expectativas e num piscar de olhos desapareceram.

O próximo desafio será fazer gelado. De curgete, sim. Prometo que, se for tão bom como espero, mostrarei o resultado.

E desse lado, há receitas com curgetes, doces ou salgadas, que queiram partilhar?

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