Um jantar de arrepiar

Por bons motivos (trabalho q.b.) tenho andado ausente deste blogue. Pela mesma razão, este ano não haverá muito tempo livre para inovações quando festejarmos o Haloween, uma das datas mais divertidas no nosso calendário de tradições recentes – de que já falei neste post.
Por isso, desta vez, partilho o que foi feito no ano passado, em companhia de bons amigos.

Comecei pela a decoração, enchendo a casa com morcegos de cartolina que esvoaçavam pelas paredes. Como o meu talento para desenhar é tão bom como os meus dotes vocais, procurei na net um template que pudesse copiar. Há uma variedade imensa, mas escolhi o mais simples de recortar, que encontrei aqui. Depois imprimi em dois tamanhos diferentes, colocando os mais pequenos na parte de cima da parede, de forma a dar uma noção de perspetiva.

Frascos com velas atrás de uma antiga radiografia iluminavam a sala numa penumbra muito apropriada.

Sobre a mesa coloquei um velho lençol que, depois de esfarrapado e pintado com pingos de tinta vermelha e rastros de mãos sangrentas, não destoaria numa cena de crime. Em cima, tinha copos cujos fundos nos fitavam quando os esvaziávamos, com olhos retirados daqui.

À hora do jantar, a ementa foi passada pelos convidados, que a aprovaram sem restrições – tinham sido avisados que qualquer comentário menos feliz daria direito a sofrimentos inimagináveis…

… como aconteceu ao desgraçado que se atreveu a tocar no néctar venenoso antes do tempo.

Salsichas com massa folhada e grão de pimenta a fazerem de olhos transformaram-se em múmias encolhidas, passadas pelas chamas do inferno (aka forno)…

… e bolachas de amêndoa (algumas com tempo de inferno a mais) permitiu-nos mordiscar dedos de bruxas de várias etnias. A ideia veio daqui.

Para o fim ficou a cafeína de peúga acompanhada por monstréri e por más piadas – das que nos fazem rir até às lágrimas, e ter uma vontade imensa de repetir momentos assim.

Anúncios

Monstréri

Terminada a ginginha o que fazer com as ginjas que sobram? Há sempre uma ou duas que caem no cálice mas, esgotado o licor, ficam sempre bastantes no fundo da garrafa. Decidimos então passar a servi-las com o café, ansiosos por ver a reação dos que provavam pela primeira vez o fruto embebido em álcool. Uns fazem uma cara estranha, misto de repulsa e surpresa, como quem bebe pela primeira vez um shot bem forte, e não voltam a tentar. Outros ficam viciados logo à partida, saboreando uma atrás de outra distraídos. Quando dão por isso, uma dezena de caroços alinhados no pires, já as graças saem mais soltas. Não duvido que um teste de balão acuse um taxa razoável de alcoolemia, mesmo a quem não beba mais nada.

Até que um amigo trouxe crepes com chocolate para a sobremesa do jantar. Com o café vieram as ginjas e não tardou muito até estarmos todos a rebolar as ditas no chocolate derretido. Daí até me ter lembrado de fazer bombons foi um instante.
Semana passada dediquei uma meia hora a derreter uma barra de chocolate negro em banho-maria, para cobrir as ginjas. Deixei-as a arrefecer sobre papel vegetal, levando depois ao frigorífico para endurecerem.

Fosse mais prendada ou tivesse mais paciência, voltaria a repetir o processo, de forma a que a camada de chocolate ficasse um pouco mais espessa. Mesmo assim ficaram com um aspeto bem agradável estes Mon Chéri com caroço.

Como a experiência foi planeada para servir no jantar de Halloween, a M. resolveu nomeá-los de Monstréri. A verdade é que são monstruosamente bons.

Halloween

De todas as festas anuais, a noite das bruxas é uma das que gera mais entusiasmo por aqui. Começamos a fazer planos com semanas de antecedência: quais os rituais que vamos repetir, o que poderemos fazer de novo, quem convidamos, o que servimos.

Tradicionais são a abóbora esculpida, cujo conteúdo é usado para fazer compota ou congelado para sopas, e os dedos ensanguentados para entrada, ou seja, salsichas com ketchup numa extremidade, e um pedaço de azeitona a fazer de unha, na outra. Depois, cada ano vamos mudando. Há uns em que dominam os morcegos (feitos com maçãs pintadas e cartolina), outros em que há fantasmas a esvoaçar ao sabor da brisa ou armários que ganham vida, com olhos e bocas estranhas.

Habitualmente inspiro-me no site Spoonful e no da Martha Stewart, mas a ideia dos suportes de vela foi minha. Queria de algo diminuto, mas não encontrei abóboras pequenas e achei que as maçãs seriam difíceis de escavar. Lembrei-me então de experimentar com clementinas, que funcionaram na perfeição.

Travessuras são poucas, mas há sempre gostosuras, nas formas mais horripilantes que conseguirmos imaginar. Desta vez a M. lembrou-se de imprimir um menu que seria entregue aos convidados. Da ementa constavam olhos arrancados, entranhas de cadáver com pele de rã constipada (servir rojões com couves salteadas seria banal), tudo servido com sangue de dragão cansado ou de salamandra anémica, conforme as preferências.

Para o fim ficou o bolo de grão venenosos, cortesia da minha amiga Ana (autora das duas últimas imagens) e das suas filhotas, que colaboraram na decoração, e que ajudaram a que um jantar de seis pessoas se tornasse numa tremenda celebração.