Receita para um almoço de verão

Para começar, deixe a ideia de aproveitar a sombra das nogueiras e cerejeiras-bravas para um almoço a marinar durante vários anos. Para isso junte um punhado generoso de procrastinação, uma colherada de argumentos válidos e falta de planeamento q.b. (esta fase é opcional e, na verdade, pouco aconselhável. Salte diretamente para o passo seguinte).

Aproveitando a altura de cortar o feno, peça uma dezena de fardos ao vizinho. Use dois deles para montar a mesa, aproveitando a tábua que tanto serve de rampa de skate como para jogos de pingue-pongue. Reserve os restantes para servirem de assento.

Misture velhas cortinas e lençóis puídos, uma tábua que já teve outros usos, cordas e espeques de campismo. Combine todos os ingredientes até ter uma mesa de apoio no lugar mais fresco.

Com alguns dias de antecedência, vá preparando cubos de gelo para sumos e limonada, e para manter as bebidas frescas (a alternativa é comprar gelo, mas pense que vai pagar 20 vezes mais por água da torneira congelada e trazer embalagens de plástico inúteis. Evite a alternativa).
Se tiver marcadores de copos, use-os. Caso contrário, lembre-se dos rolos de washi tape (fita cola japonesa, de papel) que tem guardado para usos vários. Assinale os copos com as cores que tem disponíveis. Repita a operação, de forma a que todos fiquem diferentes. (fios coloridos ou pedaços de pano servirão para o mesmo efeito. Procure alternativa).

Junte duas crianças, cordel, papel de seda colorida e agrafos. Mantenha a paciência em forno lento, vá acrescentando doses de incentivo aos poucos. Um par de horas depois terá umas belas bandeirolas para pendurar.

No dia anterior faça pão de azeitona, vários patês, dose a dobrar de gelado de limão. Todas as saladas, fruta cortada e outros pratos serão feitas no próprio dia. Não complique, elabore uma ementa simples – de qualquer forma vai sobrar uma montanha de comida.

Decore com flores silvestres apanhadas na frescura da manhã, colocadas em garrafas usadas, suspensas por arames na cerca que rodeia o local.

Espalhe mantas e almofadas para a sesta de quem quiser.

Sirva acompanhado com um grupo heterogéneo de amigos, bebidas frescas, conversas cruzadas, gargalhas soltas.

Repita sempre que possível.

Um jantar de arrepiar

Por bons motivos (trabalho q.b.) tenho andado ausente deste blogue. Pela mesma razão, este ano não haverá muito tempo livre para inovações quando festejarmos o Haloween, uma das datas mais divertidas no nosso calendário de tradições recentes – de que já falei neste post.
Por isso, desta vez, partilho o que foi feito no ano passado, em companhia de bons amigos.

Comecei pela a decoração, enchendo a casa com morcegos de cartolina que esvoaçavam pelas paredes. Como o meu talento para desenhar é tão bom como os meus dotes vocais, procurei na net um template que pudesse copiar. Há uma variedade imensa, mas escolhi o mais simples de recortar, que encontrei aqui. Depois imprimi em dois tamanhos diferentes, colocando os mais pequenos na parte de cima da parede, de forma a dar uma noção de perspetiva.

Frascos com velas atrás de uma antiga radiografia iluminavam a sala numa penumbra muito apropriada.

Sobre a mesa coloquei um velho lençol que, depois de esfarrapado e pintado com pingos de tinta vermelha e rastros de mãos sangrentas, não destoaria numa cena de crime. Em cima, tinha copos cujos fundos nos fitavam quando os esvaziávamos, com olhos retirados daqui.

À hora do jantar, a ementa foi passada pelos convidados, que a aprovaram sem restrições – tinham sido avisados que qualquer comentário menos feliz daria direito a sofrimentos inimagináveis…

… como aconteceu ao desgraçado que se atreveu a tocar no néctar venenoso antes do tempo.

Salsichas com massa folhada e grão de pimenta a fazerem de olhos transformaram-se em múmias encolhidas, passadas pelas chamas do inferno (aka forno)…

… e bolachas de amêndoa (algumas com tempo de inferno a mais) permitiu-nos mordiscar dedos de bruxas de várias etnias. A ideia veio daqui.

Para o fim ficou a cafeína de peúga acompanhada por monstréri e por más piadas – das que nos fazem rir até às lágrimas, e ter uma vontade imensa de repetir momentos assim.

Caça ao tesouro

Somando as idades dos nossos filhos, já organizámos 24 festas de aniversário infantis, a grande maioria delas em casa. Sempre diferentes, porque há medida que vão crescendo vão também fazendo escolhas distintas. De quererem convidar toda a turma do infantário passam a escolher os amigos, pedem uma festa de pijama, ou até para trocar a festa por uma noite a acampar (e não foi por isso que deixou de haver bolo, com as velas sopradas no cimo de um penedo).
Com o tempo, as memórias de todas essas festas esbatem-se. Ficam os dias que foram diferentes, os que correram muito bem e aqueles em que jurámos não voltar a dar uma festa em casa – promessa quebrada um ano depois, quando o cheiro a vomitado, o sumo espalhado no chão, os brinquedos partidos e os gritos estridentes, já foram esquecidos.

E ficam as lembranças das caças ao tesouro, que planeámos várias vezes (na realidade, o génio destas coisas é o A., que tem um empenho e ideias inesgotáveis), em nossa casa e nas dos familiares, no apartamento e no campo. É sempre uma questão de as adaptar àquilo que existe, com imaginação para criar pistas. Os “tesouros” tanto podem ser as prendas, que têm de ser achadas pelo aniversariante (às vezes com a ajuda do irmão ou irmã, que se entusiasmam com a ideia),como moedas, de chocolate ou verdadeiras – neste caso, e se o grupo for grande, é bom ter um bom suplemento de cêntimos, para que todas sejam igualmente distribuídas. A ideia é que seja um divertimento em que todos participem (e todos ganhem) e não uma corrida.

Eis algumas das ideias que pusemos em prática, em várias ocasiões:

uma pista que remete para a caixa do correio (onde se encontra um mapa inicial)

ou metade de um mapa (a outra metade aparecia mais tarde) feito num papel velho, amarelado e amachucado, com desenhos alusivos a partes da casa e do jardim cujos nomes foram adaptados à temática da caça ao tesouro – num dos casos, o imaginário Harry Potter (a casa era Hogwarts College; a casa da árvore, Old Hagrid’s Cabin; Pond Lake, a piscina, e por aí fora…). Os nomes em inglês foram propositados, para estimular o idioma.

No fundo da piscina (onde a água lhes chega pelo umbigo) havia garrafas amarradas a pesos de chumbo, contendo palavras isoladas que formavam uma frase/pista para o próximo local.

Noutra ocasião, o mapa estava rasgado em vários pedaços, que tinham de encontrar para conseguirem seguir as pistas posteriores.

Uma frase num papel branco, escrita sem tinta, apenas pressionando com força a ponta de um objeto ligeiramente pontiagudo; para a ler, a pista anterior sugeria utilizar um lápis, fazendo passar ao de leve a mina sobre o papel, revelando o que lá estava escrito.

Rolhas que flutuavam (no caso, na água acumulada dentro de pneus velhos), formando uma frase-adivinha que levava ao próximo local,

uma tampa de frasco de compota, com a mensagem na parte interior e enterrado sob uma fina camada de solo, que eles tinham de encontrar utilizando um detetor de metais (de brincar, mas que funcionava).

Uma cópia da capa de um livro de contos de fadas – que eles conheciam bem e se encontrava na estante da sala – em cujo interior se encontrava parte do mapa.

Quatro versos escritos a computador (numa fonte gótica) e impressos de forma invertida – a pista anterior sugeria que eles utilizassem um espelho para a decifrar, sem o mencionar pelo nome, no entanto.

Uma caixa enterrada, no interior da qual está uma pista; para a desenterrar, a pista anterior sugeria utilizarem ferramentas próprias.

A mensagem levava à cave (as catacumbas), onde estava um walkie-talkie escondido. As pistas seguintes eram dadas de longe, com uma voz sinistra.

O tesouro encontrava-se no interior dum tubo de cartão preso no teto da garagem, cuja tampa de plástico eles tinham de puxar (através dum fio).

Noutra versão, o tesouro estava pendurado numa árvore atado a uma corda – quando olharam para cima viam algo pendurado e tinham de procurar a respetiva corda para o fazer descer.

(A prova de que estes momentos são muito preciosos, é que a M. ainda guarda muitas das pistas utilizadas nas diversas caças que organizámos, ao longo dos anos. Sem ela e o seu cuidado, este post não teria imagens.)

Dias de primavera

Flores que crescem entre as couves da horta da vizinha. Ovos pintados com técnicas diversas. Preparativos para o melhor pão de ló. Boa Páscoa.

Receita de pão de ló como faz a minha irmã

15 ovos (12 gemas + 3 ovos inteiros)
450 gramas de açúcar
100 gramas de farinha de trigo
1 colher de sopa de fécula de batata
2 colheres de sopa de fermento

Separam-se as gemas e as claras de 12 ovos. Batem-se as gemas e os ovos inteiros com o açúcar, na batedeira, durante 20 minutos (o segredo para que fique bem fofo está aqui). Junta-se a farinha, a fécula e o fermento. No final, acrescentam-se as claras em castelo.
Forra-se uma forma com papel de pão de ló (ou, à falta deste, cartolina fina).
Vai ao forno a 180º, durante 50 minutos.

Brincar bem (*)

Sempre achei que os legos eram um brinquedo consensual, tanto entre crianças como entre adultos: não gastam pilhas nem energia elétrica, são relativamente silenciosos, entretêm os miúdos durante horas a fio, sozinhos ou com os amigos.
Isto até uma amiga me ter contado que um dia ofereceu uma caixa como prenda de aniversário a um amigo do filho. O pai do rapaz olhou para aquilo com ar desgostoso e comentou “Ele constrói isto e depois fica para aí num canto”. Além da má educação de desdenhar de uma prenda, seja ela qual for, é óbvio que ao senhor – e por inerência ao pobre do filho – falta muita imaginação.

Porque as velhinhas peças coloridas, que começaram por ser blocos de madeira criados por um carpinteiro, servem para tudo menos para serem conservadas eternamente na forma como vêm na caixa. Essa é apenas a primeira fase, o gozo de seguir à risca as instruções, de colocar os autocolantes, de abrir e fechar portas e janelas, colocar pecinhas em compartimentos, montar as figuras e brincar até à exaustão.

Mas as fases seguintes não são menos divertidas. Aquelas em que as peças se misturam para erguerem torres do tamanho de quem as constrói, fazer naves fantásticas, carros incríveis, iglus habitados pelos esqueletos dos piratas das Caraíbas, florestas iluminadas por figuras que brilham no escuro, homens de muitos braços e várias cabeças, cenários infinitos que ficam a atravancar o quarto, até o dia em que a paciência da mãe se esgota e as peças são remetidas às suas caixas – onde são arrumadas por cores, porque há muito se desistiu de outra forma de armazenamento.

Para no dia seguinte começar tudo de novo, às vezes em concursos de criatividade em que irmão e irmã se digladiam. Poderia encher a memória de um computador, se registasse e tudo o que já feito por aqui, mas limitei-me a guardar a forma como o mais novo gosta de assinalar os dias especiais.

Às vezes, apetece-me conservar estas mensagens numa prateleira mas sei que as peças serão precisas para outros fins. Ou antes, muitos outros inícios.

(*) Tradução da expressão dinamarquesa leg godt, de onde surgiu a palavra Lego

Tubarão!

Ainda se lembram do real festim? Pois bem, as amigas que na altura estiveram cá, resolveram depois fazer em sua casa uma festa aquática. O convite mencionava inúmeras diversões à borda da piscina – saltos para a água, corridas, salvamento de sereia – e fantasias a rigor, de acordo com a temática.

A M. resolveu as coisas de forma fácil. O disfarce de pescador consistia numas calças de ganga enroladas nas pernas, uma camisa aos quadrados, chinelos de dedo e um camaroeiro como adereço.
O L. ficou indeciso mas lembrou-se do Shark Boy, um filme de que gostava bastante (como gosta de tudo que seja marinho). Para isso o acessório fundamental era a barbatana dorsal. Depois de vários planos, a questão foi resolvida com uma estrutura feita com esferovite grossa, revestida com pacotes de leite, material resistente e muito versátil.

Barbatana pronta, surgiu o problema seguinte. Como a usar? Colar numa t-shirt velha estava fora de questão, porque não ficaria suficientemente direita e havia o risco de descolar quando entrasse na água. Lembrei-me então de a colocar como uma mochila, com fitas seguras nos ombros e outra a passar pelo peito.
Encontrámos por aqui umas borrachas velhas que, com agrafador, velcro e um colchete para maior segurança, e após várias tentativas de ajuste, cumpriram a função.

Ao ver a primeira foto, quem diria que não é um verdadeiro tubarão, encontrado em Trás-os-Montes, a nadar numa piscina biológica?

Agora tenho pena de não ter fotos da menina de longos cabelos pelas costas, com as duas pernas enfiadas numa só perna de um collant cor-de-rosa, que lhe davam o aspeto de uma pequena sereia. Tal como não tenho imagens dos peixes de papel colorido que adornavam a festa.
Coisas simples, que tornaram os mergulhos na piscina numa tarde memorável.

Carnaval em Trás-os-Montes

Soube que o meu filho estava integrado quando, poucos meses depois de nos termos mudado, me pediu um fato de careto, para usar no Carnaval.
Caretos são figuras presentes em muitas das festas de inverno do nordeste transmontano, onde se evocam os antigos rituais de iniciação que marcavam a passagem da adolescência à maturidade. Metade vilões de ar diabólico, metade super-heróis de energia inesgotável, usam máscaras, trajes coloridos e chocalhos à cintura.

Nos desfiles escolares da região suplantam em número os piratas, homens-aranha e outros disfarces que normalmente se inspiram no sucesso televisivo do momento. Mas se estes são fáceis de comprar em qualquer supermercado, onde iria eu arranjar um fato de careto? Não é propriamente coisa que se arranje numa loja de chineses.
Não tive alternativa senão meter mãos à obra. Umas calças de fato de treino curtas e uma velha camisola de capuz serviram de base. T-shirts antigas e outros trapos foram cosidos à mão em camadas sobrepostas, que depois cortava para ficar com ar esfarrapado. Foram muitas noites passadas à volta do fato que ia ficando cada vez mais pesado (e quente, ideal para desfilar nestas temperaturas).
A máscara foi feita pelo pai, com cartão e recortes de revistas.

O sucesso foi tal que ano seguinte a M. pediu um fato semelhante para ela. Desta vez foi muito mais fácil e até a máscara, de cartão também, ficou com um ar mais infernal. Este ano, ainda nenhum deles escolheu a fantasia. Se optarem por repetir o look, bastará acrescentar mais uma camada de tecido na manga ou na perna das calças. Até lá, trazem cor e alegria às paredes de casa.

Tantos dias por estrear

Podíamos chamar-lhe réveillon, mas aqui não houve tournedó com champignon nem espumoso champagne. Muito menos esperançosas passas, que não gostamos de nos engasgar com desejos apressados.
Para os miúdos houve, sim, bebidas excecionais – porque são a exceção reservada para os dias especiais. E foram atendidos alguns caprichos gastronómicos: queijo caprino, chouriço fumegante e uma aletria que me deu muita alegria, porque pela primeira vez saiu mesmo como eu queria.

Não foi um réveillon, foi uma festa celebrada na mais nuclear família, preparada a oito mãos, que cortaram, amassaram, picotaram, desenharam, deixaram as coisas preparadas para que tudo fosse perfeito.
E assim foi. Sem espetáculos televisivos cómicos ou depressivos, nem badaladas certeiras (os quatro despertadores ligados pela rapariga tocaram com segundos de diferença, deixando-nos sem saber com que pé entrar no ano desafinado).
Houve jogos velhos e inventados, gargalhadas, música e danças ridículas (“todas as danças de fim de ano são ridículas” será a mais inofensiva das citações do pobre poeta, que não criou heterónimos suficientes que escrevessem todos os medíocres poemas que lhe atribuem).

Não foi um réveillon. Foi uma celebração, de quem gosta de inaugurar anos, dias e tradições. As nossas.

Halloween

De todas as festas anuais, a noite das bruxas é uma das que gera mais entusiasmo por aqui. Começamos a fazer planos com semanas de antecedência: quais os rituais que vamos repetir, o que poderemos fazer de novo, quem convidamos, o que servimos.

Tradicionais são a abóbora esculpida, cujo conteúdo é usado para fazer compota ou congelado para sopas, e os dedos ensanguentados para entrada, ou seja, salsichas com ketchup numa extremidade, e um pedaço de azeitona a fazer de unha, na outra. Depois, cada ano vamos mudando. Há uns em que dominam os morcegos (feitos com maçãs pintadas e cartolina), outros em que há fantasmas a esvoaçar ao sabor da brisa ou armários que ganham vida, com olhos e bocas estranhas.

Habitualmente inspiro-me no site Spoonful e no da Martha Stewart, mas a ideia dos suportes de vela foi minha. Queria de algo diminuto, mas não encontrei abóboras pequenas e achei que as maçãs seriam difíceis de escavar. Lembrei-me então de experimentar com clementinas, que funcionaram na perfeição.

Travessuras são poucas, mas há sempre gostosuras, nas formas mais horripilantes que conseguirmos imaginar. Desta vez a M. lembrou-se de imprimir um menu que seria entregue aos convidados. Da ementa constavam olhos arrancados, entranhas de cadáver com pele de rã constipada (servir rojões com couves salteadas seria banal), tudo servido com sangue de dragão cansado ou de salamandra anémica, conforme as preferências.

Para o fim ficou o bolo de grão venenosos, cortesia da minha amiga Ana (autora das duas últimas imagens) e das suas filhotas, que colaboraram na decoração, e que ajudaram a que um jantar de seis pessoas se tornasse numa tremenda celebração.

Real festim

A ideia inicial era fazer um lanche medieval, com iguarias reais e convite formulado segundo a terminologia da época. Uma coisa simples: bolachas em forma de coroa, com chá, café ou laranjada, segundo os gostos dos ilustres convidados. O design e o texto dos convites ficariam por conta da M..
Só que nós, os pais, achámos que festa medieval que se prezasse teria de ter um castelo, – e porque não uma tenda? – e, já agora, roupa a condizer. Ao entusiasmo crescente juntou-se um desafio: não gastar um cêntimo nos preparativos, muito menos deambular pelas lojas à procura de adereços.

A fantasia foi tomando forma. Do castelo já havia as fundações, faltavam apenas as ameias e uma torre, se possível. Problema resolvido no ecocentro da cidade, de onde viemos com o carro atulhado de cartões e até com a desejada caixa de frigorífico para erguer o torreão.
Lençóis velhos resolveram a questão da tenda para as reuniões secretas da corte. Uma velha t-shirt pintada, calças recortadas e um chapéu de outros carnavais vestiram o bobo, enquanto que o cavaleiro se aperaltou de roupa escura, cotoveleiras a servir de armadura e um escudo de madeira. O rei precisava de uma coroa, que foi feita com pacotes de leite, devidamente lavados e agrafados, até ter a circunferência do real crânio. Assim surgiu uma coroa prateada, adornada de safiras de plástico e fios dourados, e fechada com velcro para que possa vir a ser usada em outras coroações.

O convite seguiu por correio, devidamente selado com lacre. A resposta foi mais criativa: apareceu misteriosamente no jardim, enrolada numa seta.
No dia marcado chegaram as amigas, ou antes uma princesa com uma tiara de flores campestres acompanhada pela sua leal escudeira, e a festa começou. Jogos, correrias, uma princesa a chamar da torre, à espera de ser ouvida por um príncipe garboso, mas o melhor, segundo eles, ainda estava para vir.
O jantar foi planeado ser feito na fogueira, e onde há fogo há tochas (feitas de paus, trapos e óleo alimentar usado) e setas ardentes para atacar os inimigos.

E assim se fez uma festa, “muito, muito fixe”, sem gastar um pataco. O tesouro, de valor incalculável, encontrámo-lo no brilho dos seus olhos à hora de deitar.