Um jardim

Nunca sonhei com um jardim. Na verdade, também nunca sonhei com uma casa, talvez porque sou pouco apegada aos sítios e às coisas. Nas vezes que imaginava uma casa que fosse minha, o que me via eram janelas e alpendres. Mais do que a casa em si, vislumbrava os lugares onde estaria pousada: no meio de um bosque de bétulas, junto a praias agrestes ou lagos plácidos, ligeiramente acima dos telhados, nas raras ocasiões em que pensava numa habitação urbana.
No meu ninho imaginado, o mais importante era o mundo que estava para lá dele. Continua a ser. Agora vivo numa casa de largas janelas, com uma vista espantosa, que nunca cheguei a sonhar e hoje é a minha realidade. Belisco-me e ela continua lá, com os seus nevões, os seus arco-íris sobre a oliveira, as suas cores de outono que mudam todos os dias, visitada por rebanhos que chegam ao fim da tarde.

Mas voltemos ao jardim que nunca sonhei, e por isso foi sendo criado ao acaso. O primeiro a inaugurar a terra foi um alecrim, trazido do monte por um amigo, seguido por outras ervas aromáticas (orégãos, manjerona, um tomilho rasteiro, cujo nome esqueci) e uns pés de plantas com bagas, que não encontraram ali o seu melhor poiso. O resto veio com tempo, plantado à toa a cada outono (e já passaram quatro deles): rosmaninho, vindo do monte também, tomilho bela-luz, encontrado na berma dos caminhos, um pé de salva dado por uma vizinha, que a cada ano duplica de tamanho. As papoilas chegam sozinhas, acomodam-se no seu canto, prologam ou encurtam a estadia conforme humores que não entendo. Rebeldes, compõem o quadro de uma forma que eu nunca seria capaz.

O melhor do meu jardim é que parece ter sido feito por medida, para pessoas como eu, que pensam mais no mundo do que na casa. Vive da água que cai do céu, mais uma rega ocasional quando o calor aperta. O rosmaninho é podado no final do verão, as aromáticas são cortadas quando os cozinhados pedem.
Chamo-lhe jardim mas nem isso é, apenas um canteiro comprido ou aquilo que se quiser chamar a esta amálgama de plantas diversas, flores silvestres, ervas daninhas. Um espelho de mim, talvez.

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2 thoughts on “Um jardim

  1. Acompanho o blog já há algum tempo, e adoro, adoro, e uma das coisas que me encantava era a imagem do cabeçalho, do castelo de papelão no meio de tanto verde, qual não é o meu espanto quando hoje vi que essa imagem já não fazia parte do cabeçalho. A atual também está gira, e sei que devemos mudar, mas aquela imagem mostrava-me o blog, a vida simples.
    Este jardim faz as delicias da minha simplicidade, a vista é maravilhosa. Parabéns pelo trabalho de vida aqui publicado.
    Identifico-me muito com este blog, apesar de viver num apartamento na cidade, tento ter uma vida cada vez mais auto sustentável, facilita-me ter acesso à horta e quinta dos avós no campo.

    • Gosto de ir mudando o cabeçalho conforme as estações. Mas admito que a foto do castelo de papelão seja a imagem de marca do blog, aliás foi com um post sobre a “construção” do castelo para uma festa medieval que o blog foi iniciado. Ele voltará, daqui a uns tempos.
      Obrigada pelos seus comentários, Ana. Quando escrevemos nunca sabemos para quem o fazemos, e é bom saber que há quem esteja atento.

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