Dos avós

Dos meus avós pouco mais guardo do que memórias. Nem isso: apenas fragmentos das memórias dos outros. Quando nasci já todos eles tinham partido, levados por doenças, maleitas genéticas, vidas duras, sofrimentos vários. Sobram algumas fotos, episódios soltos, muitos tios, um armário feito pelo meu avô materno.

O meu avô morreu há mais de 60 anos e não era carpinteiro. Que idade terá o armário e para que foi feito com tanta perfeição? Para adornar a primeira casa, após o casamento? Antes do nascimento do primeiro de dez filhos? Ou depois da morte precoce de três filhas? Para guardar os seus livros, ou lembranças que teriam de ser protegidas por portas de vidro antigo? Eis uma história que ficará por contar.

Hoje guarda alguns objetos e livros preferidos, não muitos porque com a idade (e muito caruncho) está a ficar cada vez mais frágil. Já foi fumigado, já lhe foram substituídas as tábuas da parte de trás, mas continua firme nos seus pés roídos, com os vidros originais, que o tornam tão precioso para mim.

Das mãos da minha avó guardo lençóis, alguns rematados por rendas delicadas, outros de uso mais corrente, sem adornos. Uns de algodão, outros de linho fino, um de linho mais grosseiro. Serão alguns do enxoval e outros da época em que a prole se multiplicava? Nunca o saberei.
Como são todos demasiado estreitos para as camas de hoje, dei uso diferente aos mais resistentes. Em vez de nos embalar os sonos, agora assistem às refeições, como toalhas de mesa. E levam com pingos e nódoas como todas, porque acho que as coisas devem ser usadas, guardadas nos armários de pouco servem.

Um desses lençóis, agora toalha, já me chegou com um grande remendo no meio, hábitos dos antigos que usavam tudo até à exaustão, ainda alheios ao estraga-deita-fora das últimas décadas.
Por ser mais fina, ou ter tido muito uso, foi nessa que aconteceu o primeiro rasgão. Como a minha arte na costura está longe de ser perfeita, resolvi compensar a falta de jeito com um remendo evidente, com o resto de uma outra toalha, vermelha.

Gostei tanto do resultado que fiz o mesmo quando ela sofreu outros rasgões. Agora tem quatro remendos de diferentes tamanhos. Às vezes imagino que daqui a uns anos será um grande patchwork, com poucos vestígios do tecido original.

Acreditem ou não, é a minha preferida, aquela que mais me apetece pôr na mesa quando os dias aquecem. Faz-me sorrir, esta toalha de verão, que já viu passar muitas estações.

Adenda: Não resisto a partilhar esta página, com todo o tipo de remendos, fabulosos na maioria.

Anúncios

2 thoughts on “Dos avós

  1. Pingback: Improvisos | Gastar metade Viver o dobro

Comentar

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s