Brincar bem (*)

Sempre achei que os legos eram um brinquedo consensual, tanto entre crianças como entre adultos: não gastam pilhas nem energia elétrica, são relativamente silenciosos, entretêm os miúdos durante horas a fio, sozinhos ou com os amigos.
Isto até uma amiga me ter contado que um dia ofereceu uma caixa como prenda de aniversário a um amigo do filho. O pai do rapaz olhou para aquilo com ar desgostoso e comentou “Ele constrói isto e depois fica para aí num canto”. Além da má educação de desdenhar de uma prenda, seja ela qual for, é óbvio que ao senhor – e por inerência ao pobre do filho – falta muita imaginação.

Porque as velhinhas peças coloridas, que começaram por ser blocos de madeira criados por um carpinteiro, servem para tudo menos para serem conservadas eternamente na forma como vêm na caixa. Essa é apenas a primeira fase, o gozo de seguir à risca as instruções, de colocar os autocolantes, de abrir e fechar portas e janelas, colocar pecinhas em compartimentos, montar as figuras e brincar até à exaustão.

Mas as fases seguintes não são menos divertidas. Aquelas em que as peças se misturam para erguerem torres do tamanho de quem as constrói, fazer naves fantásticas, carros incríveis, iglus habitados pelos esqueletos dos piratas das Caraíbas, florestas iluminadas por figuras que brilham no escuro, homens de muitos braços e várias cabeças, cenários infinitos que ficam a atravancar o quarto, até o dia em que a paciência da mãe se esgota e as peças são remetidas às suas caixas – onde são arrumadas por cores, porque há muito se desistiu de outra forma de armazenamento.

Para no dia seguinte começar tudo de novo, às vezes em concursos de criatividade em que irmão e irmã se digladiam. Poderia encher a memória de um computador, se registasse e tudo o que já feito por aqui, mas limitei-me a guardar a forma como o mais novo gosta de assinalar os dias especiais.

Às vezes, apetece-me conservar estas mensagens numa prateleira mas sei que as peças serão precisas para outros fins. Ou antes, muitos outros inícios.

(*) Tradução da expressão dinamarquesa leg godt, de onde surgiu a palavra Lego

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