Infinitos, enquanto durem

Os nossos aparelhos audiovisuais são antiquados, démodé, out-of-date. Para ser exata, vintage.
Há umas semanas, a televisão, que já começava a mostrar sinais de idade avançada (dificuldade em arrancar, em fazer-se ouvir), pifou de vez. Ficámos preocupados, quando vimos que palmadinhas nas costas do costume não estavam a funcionar. Um ligeiro cheiro a queimado mostrou que teríamos de nos conformar com a morte há muito anunciada.

E depois, afinal, as lojas estão cheias de exemplares bem maiores, mais novos, mais elegantes, com cores realistas, que nos fariam viajar até destinos distantes sempre que víssemos um documentário ou, quem sabe, nos fizessem sentir o odor dos pratos produzidos em qualquer programa culinário. Era só uma questão de decidir polegadas, comparar marcas e preços. Estávamos a um passo de seguir a tendência, de ter uma casa digna de qualquer família moderna e até, quiçá, de atingir a felicidade.
O problema é que somos teimosos. Achamos que as coisas devem durar, que a obsolescência programada deve ser contrariada, e assim procurámos essa espécie em vias de extinção: um técnico reparador. Sim, que nestes dias a teoria geral é “mais vale comprar um novo… aspirador, frigorífico, máquina de café…”.
Sem muita esperança levamos o aparelho moribundo a uma dessas lojas escuras, mantidas por gente que teima em sobreviver em ofícios antigos.
Um dia e 25€ depois tínhamos a velha TV de volta. A TV que se resume ao menor pacote de programas, os suficientes para entreter as crianças, ver um filme ocasional ou saber nas notícias como vai o mundo.

No mesmo armário está o vídeogravador, que teimosamente mandámos consertar, mesmo depois dos representantes da marca terem avisado de que “já não há peças para esse modelo” e “compensa comprar um novo”. Estavam duplamente enganados, e o aparelho lá continua a passar os primeiros filmes que comprei para os meus filhos.
Ali perto, está a aparelhagem de música (vintage também). Agora reduzida rádio e a leitor de CDs, que o de cassetes avariou de vez.

Acredito que seja confortável ter um leitor de MP3 com milhares de músicas, que nunca terei tempo de descarregar. Não tenho nada contra a novas tecnologias que nos facilitam a vida, nem contra ecrãs de qualidade, apenas não tenho necessidade de acompanhar todas as novidades do mercado, que em pouco tempo ficam obsoletas, ultrapassadas por um modelo melhor, maior (ou mais pequeno), com mais capacidade.

Acima de tudo acho que as coisas (sejam quais forem) não devem ser descartáveis.
Enquanto durarem, conservarei com orgulho nos meus aparelhos vintage que, dado terem sido prenda de casamento, em breve serão vintage e um.

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