Chuva de livros

Não vieram em enxurrada, antes numa morrinha que demorou mais de três semanas. Chegavam sozinhos, aos pares ou em trios, nunca mais do que isso, como se alguém tivesse orquestrado essa dança lenta, que os meus dedos ansiosos contrariavam. No primeiro dia duvidei: dois livros inesperados na caixa do correio? No segundo dia, quando a caixa de correio guardava mais três envelopes que conheço tão bem, tive a certeza.

1_chuva

Era a vencedora de uma lotaria de livros. Pelas regras, o vencedor só sabe que ganhou quando os exemplares começam a chegar, enviados pelos restantes participantes. Uma lotaria de inverno para aquecer os dias.

Esta é apenas uma das iniciativas levadas a cabo pela comunidade bookcrossing, a par com empréstimos, trocas, livros deixados em sítios públicos para quem os apanhar. A ideia é “fazer do mundo uma imensa biblioteca”, partilhando obras que, de outra forma, estariam a ganhar pó nas estantes. Há quem seja alérgico a este tipo de partilha, quem não se imagine a separar-se dos amados livros. Há até quem, como Gonçalo Cadilhe, nos apelide de “comunidade irresponsável”, como uma mãe que se esquece dos filhos no aeroporto.
Abandonar um livro? O horror! O horror! Passar o nosso preferido para mãos de desconhecidos? Impensável.

Na verdade, ganhamos sempre mais do que perdemos, mesmo que algum livro se extravie no correio ou deixe de ser devolvido. Em 6 anos de atividade registei 60 livros, que emprestei, ofereci, fiz circular por várias pessoas, deixei em cafés ou bancos de jardim. No mesmo período passaram por mim outros 140, a maior parte obras excelentes, recomendadas por alguém. De autores que já conhecia e fantásticas revelações, lançamentos recentes e clássicos intemporais.

Mas, como bem sabe quem pertence a esta seita, o bookcrossing é muito mais do que a simples troca e recomendação de livros. É um sítio onde se faz amigos, se encontram almas gémeas, se partilha informações preciosas, onde nos divertimos imenso. Um lugar onde aprendemos a conhecer as pessoas tão bem que, quando lemos um livro, sabemos exatamente quem o vai apreciar tanto como nós. Foi assim que nesta lotaria recebi livros de autores de quem gosto muito e de outros que estão a ser uma boa surpresa. A grande parte enviados por pessoas que nunca vi.

Além de generosas, os bookcrossers são pessoas criativas, poupadas e preocupadas com o ambiente. Os envelopes almofadados onde os livros viajam são utilizados até à exaustão. Uma folha por cima da morada anterior, fita cola e está pronto a seguir viagem. Depois há quem se entretenha com recortes, quem os enfeite com autocolantes ou desenhos, e até quem crie os seus próprios envelopes com folhetos de supermercado. E lá vão, ufanos do seu conteúdo, a semear sorrisos pelas caixas de correio.

Nota: Nenhum exemplar foi magoado ou sofreu qualquer dano durante a sessão fotográfica.
Depois de fotografados, dois deles já viajaram em direção a novos leitores. Os restantes seguirão o mesmo caminho, porque esse é o seu destino: serem partilhados.

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5 thoughts on “Chuva de livros

  1. Adorei o texto 😀
    Só fico triste que o meu não tenha chegado 😦 E chamava-se o Incendiário (parece-me nao estar ai) Devia aquecer a neve toda e chegar a alta velocidade a tua casa. Nunca se sabe…
    Já te estou a seguir e agora vou explorar o resto que por aqui anda. 🙂
    Beijinhos

    SironaCollin

  2. Pingback: Estradas, cidades, ilhas | Gastar metade Viver o dobro

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