Trio de beterraba

Quem diria que a inspiração para um prato viria do Miguel Esteves Cardoso? O herói dos anos 80, que nos fazia descobrir novos sons vindos de Londres ou gargalhar com a forma acutilante com que analisava os hábitos portugueses, acabou por se tornar numa espécie de avô bonacheirão que agora nos fala dos prazeres da boa comida.

Um destes dias, à procura de receitas que utilizassem todas as partes das belas beterrabas que crescem na horta, acabei por encontrar a fórmula ideal. Como o MEC sou fã de beterrabas: cruas, cozidas, em saladas ou sopa, bem como de aproveitar os vegetais até ao tutano – passe a expressão carnívora.

Inspirada por uma das suas crónicas culinárias, fiz então um trio de beterrabas, utilizando as folhas cozidas, os caules salteados em azeite e a raiz crua, simplesmente raspada e polvilhada com sementes de sésamo. Comprovei que folhas são realmente uma delícia e os caules também não são de desprezar (lamento que a foto do prato não lhes faça justiça).

Sendo setembro um mês de recomeços, decidi que seria a altura ideal para iniciar um estilo de vida mais saudável. Começando pela alimentação, a chave de tudo.

 

Receita para um almoço de verão

Para começar, deixe a ideia de aproveitar a sombra das nogueiras e cerejeiras-bravas para um almoço a marinar durante vários anos. Para isso junte um punhado generoso de procrastinação, uma colherada de argumentos válidos e falta de planeamento q.b. (esta fase é opcional e, na verdade, pouco aconselhável. Salte diretamente para o passo seguinte).

Aproveitando a altura de cortar o feno, peça uma dezena de fardos ao vizinho. Use dois deles para montar a mesa, aproveitando a tábua que tanto serve de rampa de skate como para jogos de pingue-pongue. Reserve os restantes para servirem de assento.

Misture velhas cortinas e lençóis puídos, uma tábua que já teve outros usos, cordas e espeques de campismo. Combine todos os ingredientes até ter uma mesa de apoio no lugar mais fresco.

Com alguns dias de antecedência, vá preparando cubos de gelo para sumos e limonada, e para manter as bebidas frescas (a alternativa é comprar gelo, mas pense que vai pagar 20 vezes mais por água da torneira congelada e trazer embalagens de plástico inúteis. Evite a alternativa).
Se tiver marcadores de copos, use-os. Caso contrário, lembre-se dos rolos de washi tape (fita cola japonesa, de papel) que tem guardado para usos vários. Assinale os copos com as cores que tem disponíveis. Repita a operação, de forma a que todos fiquem diferentes. (fios coloridos ou pedaços de pano servirão para o mesmo efeito. Procure alternativa).

Junte duas crianças, cordel, papel de seda colorida e agrafos. Mantenha a paciência em forno lento, vá acrescentando doses de incentivo aos poucos. Um par de horas depois terá umas belas bandeirolas para pendurar.

No dia anterior faça pão de azeitona, vários patês, dose a dobrar de gelado de limão. Todas as saladas, fruta cortada e outros pratos serão feitas no próprio dia. Não complique, elabore uma ementa simples – de qualquer forma vai sobrar uma montanha de comida.

Decore com flores silvestres apanhadas na frescura da manhã, colocadas em garrafas usadas, suspensas por arames na cerca que rodeia o local.

Espalhe mantas e almofadas para a sesta de quem quiser.

Sirva acompanhado com um grupo heterogéneo de amigos, bebidas frescas, conversas cruzadas, gargalhas soltas.

Repita sempre que possível.

Frescos e tããão bons

Diria que está oficialmente aberta a época dos gelados, se a época não fosse o ano todo. Mas é agora que mais apetecessem e nesta altura as sobremesas passam mais pelo frigorífico do que pelo forno.
Aqui há muito que nos rendemos aos gelados caseiros. Às vezes, pela pressa ou necessidade de desenrascar, ainda cedo à tentação de comprar um gelado no supermercado mas, na maior parte das vezes, basta-me dar uma olhada à lista de ingredientes (aromas, corantes, conservantes, espessantes) para repor a embalagem no lugar.

Porque para fazer um gelado bastam laticínios (leite, natas ou iogurte), ovos às vezes, açúcar e o ingrediente que vai sabor, seja fruta, chocolate ou até algo mais inesperado.
Um sorvete é ainda mais simples: fruta, água e açúcar, por esta ordem. Estão a imaginar sorvetes de laranja ou limão, com muitos cristais de gelo a derreter num ápice? Imaginem antes a textura cremosa de um sorvete de figo. É maravilhoso, acreditem.

Tal como o sorvete de ameixa Rainha Cláudia, tão fácil de fazer.

Bastam 450 gr de ameixas (depois de retirada a pele e os caroços), 150 gr de açúcar, 170 ml de água.
Juntam-se todos os ingredientes e leva-se ao lume até as ameixas estarem macias. Deixa-se arrefecer um pouco e tritura-se. Depois deixa-se arrefecer até ficar bem frio. A partir daí há duas alternativas: colocar na máquina de gelados, seguindo as instruções. Ou colocar no congelador, mexendo com um garfo, de hora em hora, para evitar a formação de cristais de gelo, e até o sorvete ficar com uma aparência cremosa

Pela facilidade e pelo resultado, para mim a máquina de gelados é quase essencial, a que dou um uso mais frequente do que outras que dispensei.

Já o gelado de gengibre não precisa da máquina e vale mesmo a pena experimentar.

Leve ao lume uma chávena e meia de açúcar, ¾ de chávena de sumo de limão, raspa de 1 limão e ½ chávena de gengibre cristalizado (picado em bocadinhos). Mexa até o açúcar estar dissolvido e deixe ferver durante 5 minutos. Retire do lume.
Entretanto, bata 4 claras de ovos em castelo. Devagar, vá juntando a calda de açúcar e gengibre, batendo durante 10 minutos. Com cuidado, acrescente uma chávena de natas e ½ chávena de iogurte grego. Coloque no frigorífico durante cerca de seis horas (não é preciso mexer).

Para um clássico, como o gelado de chocolate, o método é este:

250 ml de leite (gordo, de preferência)
100 gr de açúcar
1 ovo
400 ml de natas (2 embalagens pequenas)
80 gr de cacau

Numa caçarola, junte o ovo (inteiro) batido, leite e açúcar. Leve ao lume, mexendo sempre, até a mistura engrossar ligeiramente. Fora do lume acrescente o cacau. Quando tiver arrefecido junte as natas. Coloque na máquina de gelados.O mesmo método e receita pode ser usado para fazer gelado de coco (outro dos nossos favoritos), substituindo o cacau por 40 gr de coco ralado.

E que tal um gelado de curgete, para surpreender a família e amigos com um sabor fora do comum?

O que é preciso: 200 ml de leite gordo, 350 ml de natas, 100 gr de açúcar, 1 colher de chá de canela, uma pitada de sal, 200 gr de curgete ralada grosseiramente.
Leva-se tudo ao lume, durante uns 10 minutos, até a curgete estar ligeiramente cozida. Retira-se do lume e passa-se a varinha mágica. Deixa-se arrefecer e coloca-se na máquina de gelados.
Antes de revelar o ingrediente secreto, disseram-me que sabia a bolachas de canela, por isso o risco não é muito grande. Experimentem.

E, já agora, se a vossa horta for tão generosa em curgetes como a minha, experimentem transformá-las em coisas doces. Há mais ideias aqui.

Olá verão

 

Esqueçam o calendário. Cá em casa, o verão só começa realmente quando o toldo que dá sombra para a cozinha está montado, a cortina espanta-moscas pendurada, a piscina instalada no sítio do costume.

E com a estação, chega o misto de alegria e frustração. Por um lado termina a rotina de acordar às horas certas e os horários marcados pelos alarmes diários: das aulas, dos ensaios, dos treinos, dos concertos. Chegam convites para piqueniques. Começam a marcar-se idas ao rio, procura-se espaço na agenda para a semana junto ao mar ou a vinda do primo para a quinzena do costume. Por outro lado, corre-se o sério risco de que o verão se transforme num ramerrame igualmente monótono de limpezas e arrumações que foram deixadas por fazer ou demasiado tempo livre passado no computador.

Por isso, a cada ano tentamos encontrar novas ideias ou então repetir as que funcionaram no passado.

Procurar pirilampos
Demorei anos a descobrir que havia pirilampos na minha aldeia. Lembrava-me com saudades das noites quentes em que saíamos (um rebanho de primos) para procurarmos pontinhos luminosos junto aos muros e do fascínio que era tê-los na mão, a apagar e a acender. Até que um dia vi um e outro, e outro mais à frente. Agora sei que basta estar atenta. Eles andam aí, só é preciso saber procurar.

Piquenicar ao luar
Numa noite de lua cheia um piquenique pode ser tão bom ou melhor do que durante o dia. Evitam-se as horas de maior calor, há sombra garantida e as moscas já foram voar para outra freguesia. Se for no campo, convém ir protegido contra os mosquitos. Para a praia basta um casaco… ou encontrar madeiras trazidas pelo mar para fazer uma fogueira.

 

Mergulhar no rio
Adoro o mar, quem não gosta? Mas não há nada como um banho no rio. Ou melhor, nos rios: cada um com uma identidade diferente. Uns gélidos, outros quase cálidos, transparentes ou cor de lodo, os que deslizam numa mansidão de curvas ou saltam entre poças e cascatas. Que sorte tenho, viver rodeada de rios e a cada verão descobrir um pedaço novo, onde estamos nós, as libelinhas e o rumor da água. Nada mais e isso é tanto.

Espreitar as águas
No mar ou no rio, não há nada mais relaxante, nada que nos tire deste mundo e nos transporte para um universo fantástico, como colocar a cabeça debaixo de água para espreitar o que se esconde no fundo. E não é preciso mais do que um tubo e uns óculos de mergulho. Descobertas infinitas e emoção garantida.

Navegar por aí
Um barco ou um caiaque que nos leve a descobrir novos recantos. No rio, na costa, nos lagos. Se houver lanche, chapéu e toalhas a bordo, temos programa para a tarde inteira.

Inventar, inovar, imaginar
Jogos, receitas, músicas e histórias. Descobrir novos destinos e caminhos, experimentar novos sabores, ir mais além ou então ao sítio ali ao lado que está à nossa espera desde sempre. Andar descalço, à chuva, ao molhe. Escrever postais (como dantes), um relato das férias a várias mãos. Apanhar conchas e amoras. Colecionar amores e sorrisos.

A cada ano inventar um novo verão.

Piza a várias mãos

Cá em casa, dia de piza é dia de festa. Não só porque é uma alternativa às refeições de faca e garfo, mas porque é uma oportunidade de, literalmente, meter as mãos na massa. Amassar, polvilhar, esticar são tarefas que todos gostam, tanto como escolher os ingredientes da piza do dia.
Até que um dia alguém mencionou que pesto no lugar de pasta de tomate é que seria bom, logo contrariado por quem gosta de fazer as coisas segundo a tradição. Foi assim que tive a ideia de fazer piza à vontade do freguês.

Cortada a massa em partes iguais, cada um teria liberdade de incluir o que mais lhe apetecesse no momento. Nesse dia surgiu uma versão com sardinhas e piri-piri, outra com atum e ovo e uma terceira com espinafres e feta.

A partir daí nunca mais o dia de piza voltou a ser o mesmo. A criatividade é o mote e a alegria multiplica-se.

Dias assim

2016

O ano não entrou propriamente tão soalheiro como a imagem faz acreditar, mas começou com a promessa de uma vida mais saudável, mais mexida, mais fora de portas, com vontade de reunir com amigos mais vezes, em volta de uma mesa ou de uma toalha estendida no prado.
Começou também a terminar projetos vindo do ano velho, como o de coser as nossas iniciais a guardanapos de pano. Mais uma vez utilizei pedaços de ganga, debruadas a linha vermelha, num contraste que me agrada. Como duas iniciais se repetem, optei por dois tons de ganga. Não ficou uma obra de arte, mas cumpre a função e gostei do resultado.

E gosto mais ainda de brincar com as iniciais, que vou trocando ao sabor do momento e da disposição.

Porque há dias de plenitude…

Alma

… dias em que à mesa se alimentam os sonhos…

Mala

… e outros dias, de regozijo ou desalento (e a mesma palavra pode significar tanta coisa).

Lama

Afinal a vida é feita de dias assim e assado. Sirva-se, com apetite.

De sacos cheios

Está a tornar-se um hábito, transformar velhas calças de ganga em objetos úteis. Foi assim com as pegas de cozinha, com bolsas para telemóveis, com apliques em guardanapos (trabalho em curso). Há umas semanas precisei de substituir os guarda-sacos, feitos por mim e já com muitos anos de uso.

Lembrei-me então que a forma mais fácil e rápida de o fazer (não me ajeito com máquinas de costura e faço sempre tudo à mão) seria aproveitar as pernas das calças, que já têm a forma pretendida, sendo apenas necessário cortar à altura que precisava.

Na bainha existente bastou descoser um pouco a costura, para poder passar o cordel que serve para pendurar os guarda-sacos. Só na parte de baixo tive de coser uma dobra, para meter o elástico. Como também reutilizo os sacos para fruta e legumes, fiz os dois em tons diferentes. E assim tenho sempre sacos à mão, quando tenho de ir às compras.

Para quem precisar saber com mais pormenor como se faz um guarda-sacos, há bastantes tutoriais mais detalhados. Como este, que aproveita pedaços de tecido, ou este bem mais simples. Há ainda outras alternativas, aproveitando garrafas de refrigerantes, que podem ser feitas com a ajuda das crianças de casa. Seja em versão divertida ou então mais elegante.

Ki… bom

Não fosse eu uma deslumbrada, as minhas opiniões seriam de mais confiança. Pois se num dia venho para aqui tecer laudas ao doce de ginjas, no outro apaixono-me irremediavelmente pela compota de limão – com casca e tudo, como na canção -, para logo a trocar pela doçura de barrar no pão feita de ameixas rainha-cláudia trazidas do campo.
Com o calor de junho dispo-me de preconceitos e entrego-me à volúpia açucarada feita com morangos da minha horta, enquanto que o frio do inverno me traz desejos das tirinhas macias de um doce de laranja pecaminoso.

Nestas últimas tardes tenho-me dividido entre dois amores, ambos de travo exótico. Um feito de abóbora e especiarias, outro verde como os campos que vejo pela janela. Sim, que os kiwis são frutos que chegam com as primeiras chuvas de outono, pelo menos os que crescem em Portugal – os que vemos nas prateleira durante o resto do ano normalmente vêm do outro lado do mundo.
Foi numa tarde de outono que uma amiga me trouxe parte da sua colheita, tão abundante que tive de lhe dar algum destino. Quando finalmente provei o resultado, foi paixão à primeira dentada. É que o malandro não é só lindo de morrer como bom, mesmo muito bom.

Porque se tem vindo a avolumar “o cortejo de fãs” (palavras da V.), e como não sou ciumenta, a receita é esta:

1 kg de kiwis maduros
500 gramas de açúcar
1 lima

Depois de descascados, cortam-se os kiwis em pedacinhos. Colocam-se num tacho com açúcar até que este derreta completamente. É então que se junta a raspa, o sumo e a polpa da lima. Deixa-se cozinhar até engrossar. Eu optei passar a varinha mágica, deixando alguns pedaços inteiros. Quando fizer ponto estrada está pronto a guardar.
Se conseguir…

Tarte de Nós

Isto de ter abastecimento de nozes para o ano inteiro não é pera doce. Há que esperar que a chuva e o vento atirem os frutos ao chão, andar de costas vergadas para os apanhar – no meio de folhas secas, ervas, urtigas – para descobrir, quando já dávamos o trabalho por terminado, que uma boa quantidade ainda nos aguarda, entre urtigas, ervas, folhas secas (tenho um pressentimento de que as nozes são, afinal, bichos curiosos que saem do esconderijo para nos espreitarem).
A operação repete-se sempre que há uma ventania ou chuvada até que os galhos não conservem mais do que folhas amarelas das nogueiras.

Antes de se guardarem à sombra para aguentarem o ano inteiro, os bichos de casca grossa ainda têm de ser estendidos ao sol, de preferência numa varanda que fique longe da boca voraz de uma cadela com apetites estranhos. Depois de armazenadas em sacos, as nozes ainda requerem muitas horas de paciência e calos nas mãos, até que finalmente sejam despidas das cascas (excelente combustível para a lareira), e estejam prontas a comer.
Cá em casa usam e abusam-se. Ao natural, em iogurtes matinais, em bolos e pães, em compotas outonais, a acompanhar requeijão com mel, substituindo os pinhões no pesto caseiro.

Mas não há dúvida, de que a maneira favorita é na Tarte de Nós (porque é a preferida de quase todos, aquela que nunca sobra para o dia seguinte, a que se leva para casa de amigos, quando os queremos presentar com a nossa melhor sobremesa).

Aqui fica a receita. Quem sabe se não se torna também uma Tarte de Vós.

2 embalagens de massa folhada (redonda)
2 colheres (sopa) de manteiga à temperatura ambiente
1 chávena de açúcar
2 ovos
1 chávena de nozes picadas
1 colheres (sopa) de farinha maizena
6 metades de nozes (para enfeitar)

Forrar a tarteira com a massa folhada (1 embalagem). Bater a manteiga com metade do açúcar até ficar em creme. Juntar as gemas, uma a uma, as nozes e maizena. Deitar este creme sobre a massa folhada. Bater as claras em castelo, juntando o açúcar restante. Cobrir o creme de manteiga e nozes. Levar ao forno médio por 10 minutos.
Retirar do forno e fazer uma grade com a massa folhada restante.
Enfeitar com as metades de nozes. Levar ao forno quente por 30 minutos.

Uma dica: a massa folhada que sobrar pode usada para fazer pequenos folhados com salsicha ou cubos de queijos feta

Bem-vindo outono

Apesar das temperaturas mornas, do guarda-roupa leve, nas águas que ainda convidam a um mergulho (bem revigorante), é oficial: o outono chegou. Mesmo imaginando uma vida sem calendários ou avisos da hora exata da entrada na estação mágica, os sinais seriam inequívocos. Já partiram os bandos chilreantes de pássaros deixando em seu lugar o crocitar melancólico das gralhas e dos corvos. Agora há brumas matinais, nozes e maçãs pelo chão, vizinhos que nos enchem a casa de abóboras, um recolhimento interior e vontade de retomar as tradições que inventámos para nós.

E assim o outono vai entrando na nossa vida pé ante pé, até ao dia em que sabemos que se instalou para ficar. É o dia de festa em que acendemos a lareira pela primeira vez. Porque parece um ritual sempre novo; encher o cesto com lenha, fazer bolas de jornal para uma combustão rápida, acender o fósforo iniciático e depois ficar quietos no sofá, hipnotizados pela dança das chamas e do crepitar dos galhos.

Ao entrar no sexto outono que passamos em Trás-os-Montes, ainda me custa a acreditar que toda a lenha usada na lareira venha das poucas árvores que nos rodeiam a casa. Não é um pequeno bosque, sequer: ulmeiros doentes a ladear os taludes, ramos de nogueiras antigas que secam com o tempo, cerejeiras a descair para o terreno contíguo. Coisa pouca. E, no entanto, suficiente para encher o canto da lenha (construído pelo marido, que descobriu talentos desconhecidos desde que se mudou para o campo), para mais um outono, mais um inverno.

Sermos nós a cortar, transportar e guardar a lenha, tem ainda uma vantagem, apontada por um vizinho, com o habitual humor transmontano: “Aquece agora e aquece depois”. Só benefícios, portanto.